(continuação de 12- O Grafanil)
Na minha primeira saída à cidade de Luanda fui em primeiro lugar visitar um amigo do meu pai, o Sr. Manuel Augusto Frade que vivia no Bairro de Alvalade e trabalhava numa empresa de telecomunicações, a Companhia Portuguesa Rádio Marconi.
No centro da cidade, passei na Praça de Luanda mais conhecida por Mutamba e identifiquei-me com os machimbombos, os autocarros de Luanda. Havia uns já muito velhos, mas outros eram novos, modernos, e pareciam até confortáveis.
Depois, fui passear muito perto da baía de Luanda. Sentei-me numa esplanada (não me recordo do nome Império ou talvez Versalhes ?) já com outros militares por companhia onde bebemos umas Cucas (cervejas) acompanhadas com pratinhos de camarões que eram o equivalente aos tremoços em Portugal.
Havia sempre muita gente nesta zona central da cidade.
Muitos homens usavam camisa transparente, as mulheres pareciam muito bem vestidas para uma simples ocasião de andar na rua, outras estavam exageradamente pouco vestidas e havia ainda as belas miúdas, as que chamavam de cabritas, de cor “canela”, lindas, vestidas de mini-saia com tecidos garridos e justos a realçar as formas esculturais dos belos corpos já bronzeados, o ventre liso, os seios de bicos excitados, o traseiro era marcado por calcinhas minúsculas e tudo o resto nem era preciso adivinhar.
A população branca local com uma vida muito própria e aparentemente muito endinheirada, rodeada de criados dava-se a um novo-riquismo flagrante, que o demonstrava por tudo e por nada, mas quase sempre de uma forma ignorante. Diziam com desprezo, que os militares nada tinham a ver com eles, éramos do puto (nome dado a Portugal) e tínhamos vindo para estar no mato.
Para quem acabava de sair de Portugal e não voluntariamente, sentia alguma mágoa quando se era olhado com indiferença e nalguns casos com hostilidade.
É certo que já tinham decorrido vários anos sobre a cruel vingança dos anos 60, que a guerra estava longe e que sentiam menos a necessidade de protecção.
As revistas angolanas estavam cheias de fotografias de bailes, festas sociais, eleições de misses e muitos automóveis do tipo americano.
Por outro lado, havia muita pobreza e até miséria exposta. Uns vadiavam ou pediam esmola, outros vendiam lotaria, jornais e objectos esculpidos em madeira e outros, senhores de camisa e casaco muito sebento trocavam escudos por angolares com mais 30%.
Fomos jantar a um belo restaurante na ilha de Luanda do qual também já não me recordo do nome (talvez Horizonte?). Ficava num promontório com praia de um lado e do outro.
Comi, por 50 angolares com gorjeta incluída, lagosta grelhada com ervilhas e mais qualquer coisa, bebi vinho verde e no final um whisky.
A temperatura mantinha-se elevada.
Acabámos a noite entre as águas calmas e deslumbrantes da baía de Luanda com majestosos edifícios iluminados, encimados por reclames multicolores, o edifício do Banco de Angola, os andares do Banco Comercial de Angola, os grandes edifícios dos hotéis, o edifício de apartamentos o “treme treme” (local muito frequentado pelos militares em férias ou regressados do mato), o porto de Luanda repleto de navios, e uma boîte onde havia espectáculo de variedades e de striptease de categoria duvidosa.
Beberam-se mais uns whisky e a noite passou-se depressa e de maneira agradável.
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