Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

58- A iniciação das raparigas

(continuação de 57- Mergulhos no rio)

 

Voltando a Maio de 1973, e ao tempo em que o ambiente entre as NT e as populações eram de confiança e de descontracção, lembro-me:

 

Do momento em que fui convidado para ver a parte final e ficar a conhecer os preparativos da iniciação das raparigas.
 

Tudo acontece quando a adolescente tem o 1º fluxo menstrual e foge para o mato, embora para perto da aldeia, mas longe da vista dos homens.


Uma das mulheres adultas, a que chamavam de mestra, procura a jovem e leva-a para junto de uma árvore e aí mantêm-na acocorada. Dá-lhe umas raízes a comer e leva-a tapada para a casa das menstruadas, que fica fora da aldeia.


A iniciação dura uma semana, na companhia da mestra e de uma virgem, com quem dorme.
 

Diziam que, durante esta semana, a mestra ensinava e exemplificava o verdadeiro comportamento nas relações sexuais, a prática dos movimentos ondulatórios da vagina e as técnicas para a obtenção do máximo prazer.


Todas as mulheres que participavam nos ensinamentos, ficavam agarradas umas às outras, tal como homem e mulher.
Cada lição de aprendizagem só terminava quando a aluna e a professora atingiam o orgasmo.
 

No corpo da iniciada, também são feitos alguns golpes transversais, acima da púbis, nas costas, cintura e rins. Estas linhas, têm finalidades eróticas, excitantes e indicam onde o homem deve colocar a mão esquerda durante o acto sexual.


Logo que termina o fluxo menstrual, a iniciada é lavada e levada para casa da família ou do marido, onde a pintam toda de branco, e lhe dão um novo nome.
É nesta altura que passa a dormir com o marido, mas só na terceira noite lhe é permitido ter relações sexuais.


Enfim, independentemente da anterior vida da jovem, com ou sem relações sexuais, o que contava para a mulher era o dia do 1º fluxo menstrual e era a partir daí que acontecia a verdadeira vida de casada.
 

(a seguir - A iniciação dos rapazes)

 

publicado por Alto Chicapa às 14:24

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Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

38- Missão humanitária

(continuação de 37- Primeiro passeio pelo exterior)

 

A minha primeira saída em missão, foi humanitária. Aconteceu ao princípio de uma noite do mês de Outubro de 1972, mas de um dia que já não consigo identificar no calendário.


Um homem da aldeia de Samuchima solicitou ao comandante de companhia ajuda urgente para socorrermos uma mulher que estava em trabalho de parto há demasiado tempo, no meio de grande sofrimento e preocupação dos familiares.


Fui num jipe Williams bem velhinho na companhia de um condutor e do enfermeiro Luís.

 


Pelo caminho o enfermeiro Luís dizia que nunca tinha feito ou ajudado num parto nem tinha material próprio. Perguntei-lhe: - E porquê um alferes miliciano de minas e armadilhas?


Mesmo assim, senti-me na obrigação de tentar o melhor, com a ajuda e os conhecimentos do enfermeiro, e assistir pela primeira vez na minha vida a um parto natural, sem condições de higiene e conforto.

 


Quando chegámos, já era noite escura, e o ambiente não era nada simpático.

 

Tudo estava a acontecer numa palhota pequena de chão térreo, em cima de uma esteira e à luz de um escuro candeeiro de petróleo.

 

Havia muitas mulheres de volta em grande ladainha. O pai da criança já tinha fugido com medo das represálias da família da mulher.


- Luís, acho que só fomos chamados para aqui em desespero de causa.
- Bem, temos que fazer alguma coisa para melhorar isto!
- Vou pedir para que estas mulheres se afastem um pouco e com os faróis do Jipe, junto à porta, vai haver mais luz lá para dentro.
 

O Luís tomou a iniciativa e dirigiu-se à jovem parturiente. Vendo que no local havia cinza, terra e excremento de cabra espalhados, solicitou a duas mulheres que estavam com ela um pouco mais de limpeza no local e tratou de a desinfectar o melhor possível.
Com os dedos das mãos, (não havia luvas) tentámos “alargar e abrir espaço” para a criança nascer com mais facilidade. Mas tudo correu mal, mesmo com a muita coragem daquela mãe.
 

Aquele filho não queria nascer.
 

- Luís, na faculdade falava-se em partos provocados com soro, vamos tentar?
- Pela manhã logo se vêm os resultados!
 

Informei o chefe da aldeia e as mulheres das nossas intenções, do regresso ao quartel e do que estava feito. Pedi, para ajudarem a futura mãe numa situação grave ou quando a criança estivesse mesmo para nascer.


No povo quioco, logo que uma mulher sente os primeiros sintomas do parto, pede à mãe ou a outra mulher da família que chame a parteira (tchifungudji) e todas as mulheres que já tiveram filhos, para que auxiliem em tudo o que for necessário.
Os homens, as crianças e ainda as mulheres que tiveram relações sexuais no dia anterior não podiam assistir ao parto.


A parturiente senta-se numa esteira costas com costas com uma outra mulher, a ajudante, que lhe entrelaça os braços prendendo-a contra si. A parteira fica sentada em frente a dar continuadamente instruções.


Conforme me contaram, depois do nascimento, mais ninguém pode mexer na criança, só a ajudante e a parteira lhe podem pegar. Cortam e atam o cordão umbilical, lavam-na em água morna e entregam-na definitivamente à mãe. Esta recebe um copo de água para beber e borrifar o filho, dizendo, mais ou menos isto, para que fiques bonito e forte. No dia seguinte, há uma espécie de baptismo imunizante, que é feito por todas as crianças da aldeia com raízes, que esfregam na criança, afastando assim todos os feitiços e os males. É a partir deste momento que qualquer outra mulher poderá pegar na criança (continuam a ficar de fora as mulheres com relações sexuais efectuadas no dia anterior, porque são consideradas impuras).


Ao terceiro dia, é feriado na aldeia e dia de festa. A parturiente lava-se no rio, na altura mais quente do dia, pedindo à água que lhe dê forças e frescura. É neste dia que o pai dá um nome ao filho. O nome pode ser o de um seu antepassado, de um amigo ainda vivo, ou de um acontecimento importante que se tenha passado no dia do nascimento. Além do nome dado pelo pai ainda pode ter outro dado pela mãe, pela família desta ou pelo chefe da aldeia.
Logo que o filho recebe o nome, os pais acrescentam ao seu, o do filho, precedido de Sá, no pai, e de Ná, na mãe.
No entanto, só no acto da circuncisão, nos rapazes, ou da iniciação, nas raparigas, é que o verdadeiro nome do indivíduo será escolhido.
 

De manhã cedo quando chegámos à aldeia a criança já cá estava fora e com o cordão umbilical cortado pela parteira. Era um rapaz. Ficámos contentes com a nossa sorte e com o fim feliz daquela mãe.


O miúdo ficou a chamar-se Carlos Nosalferes.
 

 

Éramos jovens e culturalmente muito diferentes daquele povo, mas iguais perante o sentimento simples de ver nascer uma criança.


Aprendi, que nascemos iguais e até com a mesma cor, e que as dores de uma mãe são as mesmas, e que a aflição e o sucesso de um parto são suficientes para esquecer ódios ou guerras.
 

publicado por Alto Chicapa às 10:41

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Domingo, 7 de Setembro de 2008

28- O povo e a vida difícil das mulheres

(continuação de 27- Longínqua terra para onde fomos atirados)

 

Naqueles poucos meses, já tinha aprendido muito sobre o povo e a vida difícil das mulheres desta região de Angola.


A mulher era, acima de tudo, um instrumento de reprodução e de gozo sexual do homem, não tinha o direito de escolher o marido e provavelmente não havia o amor como nós o entendíamos.

 

A mulher valia na tribo pelos trabalhos que realizava e pelos filhos que procriava.

 

Ela começava o dia cedo, muitas vezes carregando os filhos às costas. As suas tarefas diárias incluíam, tratar dos animais, a preparação da comida e da terra, plantar mandioca, feijão, milho e batata-doce, pôr os tubérculos da mandioca a fermentar ou a secar, transportar a água, a lenha, frutos, raízes, assim como, ratos, gafanhotos e larvas. O cultivo da mandioca constituía a base alimentar desta gente, uma vez que a sua comida era à base de pirão, feita de farinha de mandioca por vezes misturada com milho ou tubérculo de mandioca seco ou fresco.


A farinha de mandioca, bem como o feijão e o milho provenientes das lavras eram vendidos em parte ao único comerciante na sanzala ou trocados por peixe seco, óleo de palma e panos.


Os homens tinham tantas mulheres quantas pudessem comprar, porque ter mulher ou melhor mulheres, significava ter comida e ser rico. Dedicavam-se à caça com arcos, flechas, dardos e armadilhas. A caça estava intimamente ligada às convicções religiosas ou tribais e também servia para fornecer carne para alimentação própria e para a comunidade. Adicionalmente, era seu dever construir a casa, procurar mel e destilar aguardente de milho.


Em conclusão, para as mulheres a infância acabava aos 10/12 anos quando eram pedidas em casamento. Começavam a preparar as refeições, a acarretar água e lenha, a trabalhar nas lavras e com actividade sexual, mesmo antes da iniciação. Por estes motivos, viam-se muitas mulheres com menos de 40 anos, numa avançada velhice prematura, completamente estragadas fisicamente e com aspecto de muito velhas. Causava pena ver as suas caras sofridas e os seios substituídos por peles mirradas e pendentes.
 

publicado por Alto Chicapa às 13:07

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