Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

29- Dois irmãos de mães diferentes

(continuação de 28- O povo e a vida difícil das mulheres)


Enquanto estive no destacamento do Canage tive oportunidade de conviver com dois irmãos de mães diferentes, um rapaz e uma rapariga ainda “cafeco”.

 

Cuidavam da minha roupa com esmero e muita limpeza. Ele falava regularmente o português, tinha imensa curiosidade, um grande desejo de aprender e ler. Aos poucos começámos a ter mútua confiança. Tratava-o por Dito.

 


Um dia levou-me pela aldeia, a ver o sítio onde lavavam e secavam a roupa, a visitar o adivinhador, que tinha um pouco de médico também, o local onde se faziam as cerimónias fúnebres, o local da circuncisão, os batuques, onde se dançavam os merengues e a zona da sanzala onde vivia a sua família.

 

 

Apresentou-me, os seus outros nove irmãos e irmãs (alguns ainda de colo), quatro fogosas e esbeltas mulheres, duas ainda de seios empinados, uma seria a sua mãe, teriam idades entre, talvez, os 15 e os 40 anos e no caminho de terra batida havia uma cubata diferente, e maior, onde na frente e à sombra de uma grande árvore, estava sentado um homem que aparentava muito mais idade. A todos falei. Era gente boa.

 


Durante o regresso, pensei;
- Não pode ser, este homem, que é certamente muito mais velho, não dá conta daquelas mulheres e para fazer os filhos deve ter um ajudante.


Olhei para o Dito e com algum receio perguntei:
- Dito como é que o teu pai dá conta de todas aquelas mulheres?
- "Oh alferes, não esfala isso, os filho és mesmo dele."


Quando deixei o destacamento fiz questão de me despedir especialmente daquela família, deixei uma recordação monetária e os meus livros ao Dito e ofereci uma caixa de cucas (cervejas) ao pai.

 

No entanto, não saí sem que ele me desse o segredo da sua capacidade sexual.
Respondeu-me, "Cá, nossalferes, tem esperto, tomo milongo (?), que vou buscar nos mata, para ter os pau direito e fazer os minino" (já não me lembro do nome, mas mostrou-me uma raiz amarelada parecida com um nabo grande).


Ainda pensei que seria o pau de Cabinda ou o pó de cantaridas, mas aquele “milongo” era certamente mais do que isso.


Saí desta zona, sem a angústia de querer ser herói, satisfeito comigo, honrado e com o luxo de ter gravado o meu olhar longa e eternamente. Houve momentos mágicos que ao recordarmos fazem parar o tempo e o mundo se fosse possível.


Muitos anos depois vi o filme África Adeus, e como eu acreditei na frase que Meryl Streep diz para Robert Redford: - Tudo o que disseres agora, eu acredito.
 

publicado por Alto Chicapa às 16:18

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Domingo, 7 de Setembro de 2008

28- O povo e a vida difícil das mulheres

(continuação de 27- Longínqua terra para onde fomos atirados)

 

Naqueles poucos meses, já tinha aprendido muito sobre o povo e a vida difícil das mulheres desta região de Angola.


A mulher era, acima de tudo, um instrumento de reprodução e de gozo sexual do homem, não tinha o direito de escolher o marido e provavelmente não havia o amor como nós o entendíamos.

 

A mulher valia na tribo pelos trabalhos que realizava e pelos filhos que procriava.

 

Ela começava o dia cedo, muitas vezes carregando os filhos às costas. As suas tarefas diárias incluíam, tratar dos animais, a preparação da comida e da terra, plantar mandioca, feijão, milho e batata-doce, pôr os tubérculos da mandioca a fermentar ou a secar, transportar a água, a lenha, frutos, raízes, assim como, ratos, gafanhotos e larvas. O cultivo da mandioca constituía a base alimentar desta gente, uma vez que a sua comida era à base de pirão, feita de farinha de mandioca por vezes misturada com milho ou tubérculo de mandioca seco ou fresco.


A farinha de mandioca, bem como o feijão e o milho provenientes das lavras eram vendidos em parte ao único comerciante na sanzala ou trocados por peixe seco, óleo de palma e panos.


Os homens tinham tantas mulheres quantas pudessem comprar, porque ter mulher ou melhor mulheres, significava ter comida e ser rico. Dedicavam-se à caça com arcos, flechas, dardos e armadilhas. A caça estava intimamente ligada às convicções religiosas ou tribais e também servia para fornecer carne para alimentação própria e para a comunidade. Adicionalmente, era seu dever construir a casa, procurar mel e destilar aguardente de milho.


Em conclusão, para as mulheres a infância acabava aos 10/12 anos quando eram pedidas em casamento. Começavam a preparar as refeições, a acarretar água e lenha, a trabalhar nas lavras e com actividade sexual, mesmo antes da iniciação. Por estes motivos, viam-se muitas mulheres com menos de 40 anos, numa avançada velhice prematura, completamente estragadas fisicamente e com aspecto de muito velhas. Causava pena ver as suas caras sofridas e os seios substituídos por peles mirradas e pendentes.
 

publicado por Alto Chicapa às 13:07

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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

27- Longínqua terra para onde fomos atirados

(continuação de 26- Uma G3 e cinco carregadores de 20 munições)

 

A nossa vida, nesta longínqua terra para onde fomos atirados, mantinha-se religiosamente com os mesmos rituais, protecção diária da construção da estrada, esporádicas patrulhas na mata, as estadias regulares no destacamento da sanzala do Canage ou a vida de prisioneiros no quartel e do arame farpado.


Apesar de tudo, o desterro que nos era imposto tinha alguns aspectos positivos. Nem tudo era mau, se soubéssemos partilhar as experiências e abrir os olhos para o que nos rodeava.


Efectivamente nem tudo foi mau para mim, recordo o período entre 13 de Maio e 1 de Julho onde tive um pequeno oásis na minha vida e também as forças redobradas.

 

 

Fiquei muito contente e honrado e senti-me um privilegiado durante 6 semanas com a companhia da minha mulher e do meu filho João.

 

 

Lembro com gratidão aqueles momentos e não esqueço a sua coragem.
 

publicado por Alto Chicapa às 14:34

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Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

16- O aquartelamento de Sacassange

(continuação de 15- Atirados para um comboio)


Completamente esgotados, chegámos ao nosso local de destino o aquartelamento de Sacassange nos arredores da cidade do Luso.

 


Fomos calorosamente recebidos pelos militares que íamos render e que aguardavam ansiosos a nossa chegada.


Era um aquartelamento pouco cuidado que mais parecia um destacamento. As instalações eram precárias e acanhadas. Do que me lembro, havia uma porta de armas, a casa dos oficiais, o depósito de géneros, a secretaria, uma messe, um posto de vigia alto, o forno do pão, o refeitório dos soldados, todo aberto para que o ar corra livremente, apenas coberto pela chapa ondulada de zinco para protecção do sol e das chuvadas, a cozinha e uma cantina. As oficinas e a arrecadação de material ficavam próximas das casernas dos soldados.

 

 


O aspecto mais agradável do aquartelamento é que ele ficava num planalto, lado a lado com um pequeno rio afluente do rio Luena.

 

 

O clima, muito diferente do de Luanda, é quase idêntico ao da metrópole com calor suportável durante o dia, e fresco durante a noite. Não dispensava o uso de cobertores.

 


Estava localizado num antigo colonato, uma zona agrícola que já há algum tempo tinha sido abandonada. Os madeireiros em número reduzido, também deveriam ter sido bastantes na região. O desnível em relação ao mar era de 1300 metros e ficava a poucos quilómetros do Luso (+/- 14 km) na estrada para o Lucusse e para Gago Coutinho. Nas proximidades, 2 a 3 quilómetros, havia uma grande povoação, a sanzala do Moxico Velho.

 


O que tive de fazer nos primeiros dias estava longe de ser interessante mas era importante. Começava o meu verdadeiro papel nesta estúpida guerra, que não deveria ser minha, apesar de me ver metido nela. Ajudei na inventariação e recepção de algum material, juntei monótonas e enfadonhas listas de material, com assinaturas conjuntas de quem fica e de quem parte. Eram relações de todo o tipo de material existente, que servirão, mais tarde, para uma nova conferência e transmissão, quando chegar a nossa vez de sermos rendidos por outro grupo.

 


Contava-se que nas rendições havia sempre a tendência para algumas aldrabices, era o “desenrasca” da tropa. Cobertores dobrados ao meio para serem contados por dois, vasilhas de azeite e de óleo em que metade era água, guinchos de viatura sem o mecanismo interior ou a peça que era contada depois saia por uma porta entrava por outra porta e voltava a ser contada, enfim sempre me disseram que a tropa manda desenrascar, mas não podes ser apanhado.
 

publicado por Alto Chicapa às 15:21

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