Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

52- O meu primeiro Natal em África

(continuação de 51- Um fim-de-semana antes do Natal)

 

O meu primeiro Natal em África estava por horas.


A calma nas tarefas e os dias rotineiros do quartel permitiram-me o envio das boas festas a tempo. Socorri-me de uma velha agenda, levada de Lisboa, onde apontei as moradas de amigos e familiares, mas que por necessidade passou rapidamente a um diário de letra miudinha muito apertada e com todos os espaços em branco aproveitados, incluindo as margens.
Hoje, a trinta e seis anos de distância dos acontecimentos, o pior tem sido as muitas palavras reduzidas, as frases inacabadas, as referências e as abreviaturas, e ainda, o mais frustrante, quando não se percebe a nossa própria letra.


Já não me lembro dos pormenores da consoada, da árvore de Natal, da música alusiva à época, se a houve, do bacalhau com batatas ou do bolo-rei. Porém, o ambiente geral era relativamente agradável e havia a melhor das disposições.


Numa noite com um enorme manto de estreladas dei uma volta de boas festas pelas sentinelas. Também fui pelas casernas com uma mensagem de amizade, afinal eram eles a minha família mais próxima.

Demorei-me um pouco mais na caserna do meu grupo de combate, onde, no meio de um grupo de soldados a jogarem à lerpa e de outros a conversarem e a rirem, havia uma mesa improvisada com chouriço, presunto, queijo, bolos secos pinhões e uma garrafa de espumante.

Ainda havia quem estivesse a reler aerogramas antigos, e outros, mais cansados, recuperavam de uma semana de mata com roncos surdos. Mais ao fundo, metido a um canto, estava o Alves que sem dar pela minha presença mostrava um ar calmo e feliz, provavelmente a reviver sonhos, a terra, os familiares, os amigos e a namorada.

- Então Alves?

- Um bom Natal!

– Desculpe meu Alferes, estava distraído a sonhar com a consoada junto da família, com a Missa do Galo lá na terra, e com a fogueira no adro da igreja.


A minha noite de Natal continuou no bar de oficiais entre espumante, uma animada conversa, dois whiskies e algumas anedotas alusivas à época.
Ainda me recordo de duas, a dos dois militares que tinham pontos de vista diferentes: um era pessimista e o outro optimista. No Natal o pessimista recebeu uma bicicleta e o optimista, uma caixinha com uma bosta de cavalo.
Diz o pessimista:
- Agora que recebi um bicicleta, vou cair e aleijar-me! E tu, o que é que recebeste?
- Eu recebi um cavalo, mas ainda não sei onde está.
E aquela, quando a mãe pergunta à filha:
- Então o que gostavas que o Pai Natal te desse?
- Preservativos L.M..
- Preservativos L.M.?!
- Sim, é que eu tenho cinco bonecas e não quero ter mais nenhuma.


No final, ainda veio o momento das ofertas do Movimento Nacional Feminino. Pelo meu lado, recebi um número do Cavaleiro Andante de 1966, um número da revista, Flama, já com quatro anos, e um estojo com uma gillete, um pacote de cinco lâminas ligeiramente ferrugentas, e um pincel para desfazer a barba.

 

Mas, a vida no Alto Chicapa nem sempre era assim tão cor-de-rosa.

Um dia, depois do serviço no quartel, fui dar um passeio na companhia do meu cão Buda, no exterior do arame farpado.
Andava de uma forma descontraída, em calções, camisola branca de manga curta e sem arma.

 


Quando passei junto ao depósito da água, senti que naquele momento, estava um homem a ser interrogado por alguém, e que teimava em nada contar. Ouviam-se gritos e mais gritos, sem parar.
Provavelmente estavam a convencer o infeliz a falar.
Por ser arrepiante, ainda hoje lhe oiço os gritos.


Num outro caso, acontecido umas semanas depois, assisti à tentativa miserável de obrigarem um homem a falar que estava de mãos presas e deitado no chão com uma roda do jipe encostada à cabeça.
O silêncio do homem, interrompido pelo acelerar do motor, era assustador.


Nunca me explicaram os motivos destes acontecimentos nem da prática de interrogatórios com jipe, mas contaram-me, que, quando ficam calados, os procedimentos habituais era entrega-los à DGS / PIDE, para os obrigarem a falar ou os levarem.
 

(a seguir - Sem reabastecimento e correio)

 

publicado por Alto Chicapa às 15:34

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Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

45- Operação "Pato 7212", sexto dia

(continuação de 44- Operação "Pato 7212", quarto e quinto dia)

 

Ao sexto dia, pelas treze horas, chegámos ao ponto de recolha numa zona plana e de vegetação dispersa.

 

Patrulhámos em círculo a área envolvente e avançávamos o máximo possível ao longo da picada.

 

 

O deserto humano e a ausência de vestígios mantinham-se.

 

Tal como tinha acontecido na largada, a recolha era feita por três ou quatro Unimogues ou por uma Berliet e dois Unimogues e mais cinco militares para protecção às viaturas.

 

Sentia-me muito à vontade e sem medo em plena selva africana, inclusive até conseguia compensar alguma alimentação enlatada por outro tipo de alimentos mais frescos e calóricos, mas as deslocações na picada alteravam de forma inexplicável o meu estado de anímico e eram o momento que mais temia.


A estadia na mata transformava a nossa aparência. Ficávamos irreconhecíveis, mal cheirosos, a barba por fazer, cansados, mal alimentados e carentes de um sono descansado numa cama.
Quando estávamos integrados no grupo e a conviver diariamente não se prestava atenção à transformação, íamo-nos habituando à degradação progressiva da nossa imagem, e só dávamos conta dos estragos reais quando regressados ao quartel íamos a um espelho.
 

(a seguir - formigas térmitas e duas matacanhas)

 

publicado por Alto Chicapa às 09:55

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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

44- Operação "Pato 7212", quarto e quinto dia

(continuação de 43- Operação "Pato 7212", segundo e terceiro dia)

 

O quarto e o quinto dias foram os melhores. Sossego absoluto.


Se não estivéssemos em guerra, diria que tinha sido um percurso turístico, tanta era a beleza da região. Andámos durante toda a manhã sob um sol escaldante e compensávamos o intenso calor com travessias refrescantes dos pequenos afluentes do rio Cuango. A vegetação, era, geralmente, muito densa e de difícil penetração o que nos permitia encontrar locais seguros e muito propícios para recuperar as forças e passar o resto do dia e a noite.

 


Foi nestes dois dias que os meus olhos viram as melhores imagens da selva africana, e que nenhuma máquina fotográfica daquela época poderia mostrar completamente.

 


Num local, onde o leito do rio e o caudal aumentavam substancialmente e o manso murmúrio da água corrente contrastava com umas impressionantes quedas de água, vi plantas até aqui nunca vistas, árvores de grande porte, frutos desconhecidos e muita vegetação a transformar o chão num imenso e garrido tapete verde.

 

 

Também vi, peixes bem junto à margem, sem medo algum dos humanos e imensos peixinhos pequeninos muito coloridos, que pensava só existirem em aquários.

 

Para além do rugido dos leões, fomos ainda contemplados com três elefantes num trajecto muito lento e elegante, de uma onça a fugir, de uma grande família de javalis, de bandos de macacos cão muito agressivos, grandes cágados, ratos voadores com uma membrana entre a pata dianteira e traseira que lhes dava a capacidade de planarem do topo das árvores até à base de outra, voltavam a trepar e a planar, uma grande cobra e inúmeras cabras do mato, uma espécie animal muito abundante na região, que era mais uma espécie de gazela cuja estatura seria um pouco maior do que a das cabras na metrópole.


Era uma região idílica, onde reinava uma paz de espírito repousante e que convidava ao sonho.

 


O levantamento do acampamento era feito muitas vezes ainda sem sol, desmontávamos os panos das tendas, arrumávamos os sacos mochilas e disfarçávamos os vestígios da nossa presença. As latas vazias e o lixo era colocado num buraco, coberto com terra e folhas.

 

Era uma atitude que só nos convencia a nós, era do tipo gato escondido com rabo de fora, porque nunca era possível repor imediatamente o aspecto natural do local ou eliminar totalmente os vestígios deixados e as clareiras abertas pelo nosso calcar na vegetação.
 

(a seguir - Operação "Pato 7212", sexto dia)

 

publicado por Alto Chicapa às 11:41

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Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

40- Calejamento dos grupos de combate.

(continuação de 39- Chuva diluviana)

 

A nossa companhia após o calejamento dos grupos de combate, já habituados às dificuldades da mata, e às possíveis tácticas do IN (inimigo), desenvolvia a actividade operacional para áreas de intervenção militar, enquadradas pelos rios, Cassai, Cuango, Cuango-Mugué, Cumbi, Cucumbi, Cuilo, Luchico, Chicapa, Luchace, Luachima e Chiumbe, e incrementava o apoio social junto das populações, a partir da própria companhia no Alto Chicapa, de um destacamento na aldeia de Cambatxilonda e, na parte final da comissão, com um novo destacamento na aldeia de António Cavula.


As operações que realizámos nas matas e nos rios do Alto Chicapa, eram alternadas de cinco em cinco dias, mata / quartel, ou eventualmente de seis dias, mas eram quase sempre iguais e até o medo das minas durante o trajecto para a largada ou na recolha se mantinha, no entanto, conforme os locais, mudava a vegetação, o estado do tempo, as nossas dificuldades e uma ou outra peripécia.
 

(a seguir - Os preparativos da operação “Pato 7212")

 

publicado por Alto Chicapa às 11:57

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