Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

65- Epilogo / Fim da comissão

(continuação de 64- Epilogo / Destacamento)

 

Quando se entrou num período próximo do fim da comissão o pessoal ficou mais animado e começou a acreditar que íamos chegar inteiros ao “Puto”.


Todos queriam uma última recordação para levarem, uns panos estampados (os quitenges), imagens esculpidas em madeira, cantaridas (úteis na velhice), colares de malaquite, roupas, aparelhagens sonoras, garrafas de whisky e tabaco.


Seguiu-se, o grande frenesim, e para o Silva, o nosso carpinteiro, de fazer os caixotes com madeiras nobres para levarmos todas as recordações, que seguiriam mais tarde de barco.


Mas o final, não ia ser fácil. Com os sucessivos atrasos na nossa rendição, com os acontecimentos políticos que já se adivinhavam desde meados de Março (1974), conforme mensagens chegadas ao seio do núcleo de oficiais milicianos oriundos da Universidade de Lisboa, e a mudança de regime no governo português, após o 25 de Abril, o nosso regresso atrasou-se e obrigou muitos a repensarem o futuro das suas vidas.
No meio de muita desinformação, lembro-me vagamente que o desconhecimento da situação era total e a confusão reinou durante semanas.

 

No mês de Maio, fomos finalmente rendidos.


Enquanto eu e o furriel Coimbra fomos os eleitos a percorrer uns adicionais 1000 quilómetros, até Sá da Bandeira, em velhas camionetas de carga para entregar os soldados do contingente de Angola, outros tiveram o direito a um merecido descanso em Luanda, a tal cidade que ainda fervia de vida, com as suas belas praias, os bons restaurantes da ilha, os cinemas ao ar livre (recordo o Miramar), muitas mulheres na moda e um ambiente tão frenético onde todos se alheavam completamente do que se estava a passar e do que estava para vir.
Aquela gente, parecia não acreditar, que a umas centenas de quilómetros havia ainda uma luta armada, que tinha acontecido em Portugal uma forte mudança política e que se adivinhava o rápido aparecimento dos primeiros focos de uma guerra civil.


Quando toda a Companhia já estava em Luanda, no dia 05 de Junho meteram-nos num avião, fretado à TAP, e regressámos a Lisboa.
O capitão e outros camaradas ainda ficaram mais uns dias a tratar da liquidatária da Companhia e do fecho das contas a entregar nos Serviços de Contabilidade e Administração.
Durante a viagem, meditei sobre a minha estadia em Angola, o tempo perdido, os locais por onde andei e onde me sentia melhor, na minha vida que já estava a mudar naquele avião para outros ritmos e outros hábitos, procurar trabalho, cumprir horários e tal como a outras pessoas normais, ganhar a minha independência.

 

A sobrevoar Portugal, as lágrimas ainda me vieram aos olhos quando se entoou, cantou, berrou, quase até chegarmos à pista de aterragem, a canção "Cheira bem, cheira a Lisboa..."
Quando aterrámos em Lisboa, no aeroporto de Figo Maduro, e saímos para o quartel, RALIS, tínhamos terminado a nossa odisseia.

 

Já à civil, reparei que Lisboa era uma cidade cheia de Verão, filmes recentes, jornais, depois a televisão a emitir programas que eram para mim quase uma novidade, tudo parecia, ainda... um sonho.


Passados estes anos, ainda tenho a consciência de que, quando regressei, não era o mesmo e que aqueles dois anos e meio pesaram muito na minha vida, mas também aprendi muito, a vida deu-me luta, obrigou-me a enfrentar desafios e hoje, ainda sei o que não quero.


Finalmente, ficaram as boas recordações e as suficientes para agora passados tantos anos as podermos partilhar em encontros, em viagens ou no nosso sítio na internet http://cc3485.no.sapo.pt/ , lembrando que houve também uma saudável, sincera e desinteressada colaboração vivida naqueles momentos entre todos que poderá servir de exemplo para hoje sermos melhores, ultrapassarmos traumas e esquecermos divergências.

 

Nzambi e os espíritos da selva estiveram comigo, não esqueço.
 

 

(a seguir - Conclusões)

 

publicado por Alto Chicapa às 14:08

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Domingo, 21 de Dezembro de 2008

64- Epilogo / Destacamento

(continuação de 63- Três crianças no quartel)

 

Quem viveu em África nunca mais a esqueceu, dizem … e eu confirmo.
 

A três meses da mudança política verificada no dia 25 de Abril de 1974, a nossa companhia viveu uma nova fase da guerra devido à substituição do Comandante da Z.M.L. e às novas movimentações da U.N.I.T.A..


Apesar da operação Castor e de a ordem dada ser “Rapidamente e em força em cima de Savimbi”, este, mesmo assim, acabou por escapar para a Zâmbia.


Numa quinta-feira, de um dia do mês de Janeiro, que já não consigo precisar, foi-me entregue, em mão, uma mensagem, escrita num pedaço de cartão das rações de combate onde dizia, “o destacamento precisa de mais tropas, pode haver maka no sábado, cuidados na picada sul, ainda saber mais”.

 


 

António Cavula, a doze quilómetros do Alto Chicapa, era uma aldeia onde o nosso destacamento esteve instalado durante uns meses. Foi construído um pouco antes da entrada Oeste da povoação e ficava bem junto da picada.

 

A população mais influente, incluindo o soba, nunca se mostrou muito amistosa com a tropa.
Dizia-se, que ainda existiam muitas influências da F.N.L.A. na zona e entre Os Mais Velhos.
A nossa missão na aldeia estava terminada há algum tempo.
 

Os resultados estavam à vista de todos, a aldeia estava reconstruída com algumas casas novas e outras melhoradas, os caminhos restaurados, o depósito de água tinha voltado a ter água e a escola estava a funcionar com melhores infra-estruturas.
 

Sem que alguém se apercebesse da gravidade do que estava em vias de acontecer, preparou-se o nosso pequeno-almoço para mais cedo do que era habitual.
Ainda poucos sabiam que era a última refeição.
Mesmo assim, não deixámos de ter os miúdos à espera para levarem, o café com leite e o pão para a cubata.
Quando os soldados souberam que íamos regressar ao quartel, houve uma azáfama e uma rapidez invulgar no destacamento para arrumar os materiais. Ainda não eram nove horas, já estava tudo desmontado e empilhado, à espera da chegada da Berliet e do Unimogue.
 

- Como é, alferes?
- Diz, Vieira!
- Temos tudo pronto. E a viatura quando chega?
- É preciso calma. Aproveitem o pouco tempo que aqui vamos estar para descansarem.
- Oiçam bem o que vos digo … ninguém sai daqui para despedidas na aldeia!
- Mas alferes ….
- É uma ordem, depois falamos!
- Furriel! - Furriel Gomes, meta aí uma cunha.
- Parece que não ouviste bem!
- Não olhes assim para mim, se alguém sai daqui, vai tudo co’caralho … perceberam!
 

Chegámos ao quartel por volta da hora de almoço depois de uma viagem rápida e silenciosa.
 

O comandante de companhia quando chegou ao fim da tarde, vindo do Cacolo, ficou furioso com as informações que lhe transmiti e, ainda mais, com a minha saída do destacamento, que, diga-se, já estava mais ou menos prevista.
Com tudo o que ouvi, com uma nova ameaça de cinco dias de prisão, embora hoje isto já não tenha importância nenhuma, foi uma experiencia única na minha vida.
 

No dia seguinte, de manhã muito cedo, o capitão dirigiu-se, com outros da sua confiança, ao local. Foram atacados a rajadas de kalashnikov. Regressaram ao quartel sem ferimentos, embora um pouco desasados.
 

Em conclusão, acabei por ser o “bombo” daquela festa.
Mandou-me, escolher dez homens do meu grupo de combate e sair Domingo de manhã para patrulhar a área durante quatro dias.
Parti, para o meu novo castigo, com 10 voluntários, os do costume, o pessoal fixe, e um cão. Fomos para uma zona de mata que eu conhecia muito bem e que até nos possibilitava algum descanso.
Para nossa segurança, mas contra a vontade do Hamilton, mandei cancelar, até ao último dia, todos os contactos diários com o quartel.
 

O meu relatório da operação / patrulha, indicava que já não havia nada a assinalar na região e que a fuga de, mais ou menos, cinco indivíduos, três com botas militares, tinha sido feita ao longo da picada, na direcção da povoação de Cazoa.
Ainda acrescentei que a aldeia estava dividida na versão dos acontecimentos, numa versão, diziam que os guerrilheiros tinham vindo sob protecção da população, com a intenção de fazer sangue no destacamento e fugir rapidamente para a região do Dala, na outra versão, diziam que os guerrilheiros tinham vindo visitar familiares e ver as melhorias na sanzala. No entanto, ficou por dizer, a terceira versão dos acontecimentos, na boca de seis simpatizantes do M.P.L.A., que argumentavam estar tudo preparado para na lua nova haver um massacre nocturno no destacamento.
 

Umas semanas mais tarde, consegui obter um pouco mais de informação e conhecer melhor os contornos das eventuais intenções. Efectivamente, tudo estava a ser preparado há algum tempo com a conivência de algumas figuras da aldeia sob o pretexto de ser uma visita a familiares. Para além das flagelações às instalações enquanto os soldados dormiam, o grupo atacante iria dividir-se em dois, para na picada emboscar a coluna que eventualmente viesse em ajuda.
Passados dois meses, ainda consegui saber um pouco mais. O grupo era constituído por sete elementos, todos pertencentes à U.N.I.T.A., tendo dois deles ficado na aldeia sem as armas.
 

Depois daquelas obras todas, dos trabalhos de manutenção, da ajuda dos enfermeiros às populações, da actividade do Capelão e do Médico, dos tempos difíceis, do cheiro da morte e do apelo da guerra, sinto ainda, a magia daquelas gentes diferentes, a terra selvagem e bela, tudo o que nos fazia pensar com um permanente confronto de sentimentos e de emoções.
 

Ao fim de tantos anos, sem esquecer o sucedido, consigo perdoar, totalmente, a atitude miserável daquele soba, e interrogo-me, sobre:
• Os inúmeros sacrifícios, perdidos e destruídos, que ficaram por lá; e
• A razão da nossa Pátria, por quem demos, uns a vida, outros a saúde e outros a juventude, parecer querer esquecer-se de nós.
 

(a seguir - Epilogo / Fim da comissão)

 

publicado por Alto Chicapa às 12:16

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Sábado, 6 de Dezembro de 2008

56- Mudança no comando da Zona Militar Leste

(continuação de 55- Torneio de futebol)

 

A vida no quartel mantinha-se religiosamente igual, mês após mês. A região também continuava sem vestígios de movimentos hostis, no entanto uma mudança no comando da Z.M.L. (Zona Militar Leste) iria alterar o equilíbrio conseguido pela equipa do general Bettencourt Rodrigues.


Esta mudança, originou também uma visita ao nosso aquartelamento por altas patentes militares onde se incluía o senhor General Hipólito. Os preparativos foram levados ao extremo e de tal forma que até os soldados passaram a usar lençóis na cama, mas era só um, para, naquele dia, fazerem a cama à espanhola, e para o senhor General ver.

 


(fotografia cedida por Álvaro Marques) 

 

No dia do evento, reuniram-se na “parada” os militares presentes e outras entidades das quais não me recordo de nada.
De acordo com as normas, e depois de prestadas as honras militares, a patente mais alta em visita ao aquartelamento tomou a palavra e massacrou os nossos pobres ouvidos com banalidades, durante o que me pareceu uma eternidade.


Depois das cerimónias e já no momento do convívio informal perguntei a alguns soldados quais tinham sido as impressões.
Disseram-me:
- Falou, falou …
- Muita conversa …
- Chicalhada …
- Não percebi nada …
- Pelo menos vamos ter rancho melhorado!


A mudança no comando da Z.M.L. dá-se numa altura em que as tropas portuguesas estavam muito confiantes e descontraídas. Mesmo assim, a nossa actividade operacional não tinha abrandado embora todos nós soubéssemos que os grupos do M.P.L.A. e da F.N.L.A. estavam para lá da fronteira. Mas, as consequências não se fizeram esperar e as acções do IN começaram a aparecer, junto à fronteira, de formas ocasionais e curtas, mas muito traiçoeiras, violentas e com um elevado potencial de fogo.
Por exemplo, no itinerário Luvuei-Lutembo, montaram uma emboscada, causando 5 mortos e 32 feridos, com alguns muito graves, e a U.N.I.T.A. prevendo que a sua situação iria mudar, também tentou, embora sem êxito, ser reconhecida oficialmente pela ONU, no decurso da 22ª sessão do Comité de Libertação, em Mogadíscio.


O novo comando planeou para Janeiro de 1974 a operação Castor, com ataques violentos contra as bases da U.N.I.T.A. e a aniquilação da sua direcção.


Savimbi, com a ajuda de uma notícia saída no Jornal Expresso, teve conhecimento das intenções, perspectivou os possíveis cenários de guerra, e anunciou por escrito, em Setembro de 1973, a um amigo madeireiro da localidade de Cangumbe, situada a poucos quilómetros do Luso, o que se estava a passar e que iria pôr-se a mexer e rever o seu manual da guerrilha.


Entre Dezembro de 1973 e Janeiro de 1974, a U.N.I.T.A., sem aviso prévio, primeiro, ataca violentamente as tropas portuguesas, provocando muitas baixas, e de seguida as populações que lhe eram mais hostis, como por exemplo, a destruição da localidade de Sarieza no Bié e o corte de 36 cabeças, de homens, mulheres e crianças, na população de uma localidade que já não consigo precisar mas que ficava a cerca de 60 quilómetros do nosso aquartelamento.


Também havia duas flagelações programadas para o Alto Chicapa, sob a responsabilidade de um pequeno grupo de sete jovens, dividido em dois, que foram naturalmente “abortadas” por falta do objectivo principal, os militares no destacamento em António Cavula.
De madrugada, quando os atacantes se aperceberam do novo enquadramento militar na aldeia, desorganizaram-se, e por ausência de comando ficaram perdidos e sem iniciativa.
Dez horas fizeram a diferença e mudaram toda a estratégia de um ataque traiçoeiro pela madrugada e de uma emboscada criminosa, para uma vitória silenciosa, nossa, sem armas e sem heróis.


Ao P. (professor) e ao primo (monitor / enfermeiro), amigos sem cor, onde estiverem, bem hajam.
 

( a seguir - Mergulhos no rio)

 

publicado por Alto Chicapa às 14:28

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Domingo, 16 de Novembro de 2008

51- Um fim-de-semana antes do Natal

(continuação de 50- Já passei por aqui e um condutor nervoso)

 

A vida no quartel mantinha-se sempre igual e rotineira, mas era muito exigente para aquele meio, obrigava-nos a uma certa postura diária e a muita disciplina no vestuário, e ao cumprimento dos horários.


Entre o capinar e a plantação de abacaxis, havia sempre muitos trabalhos de manutenção ao quartel e de obras nas sanzalas.


Um certo dia, julgo que fui premiado sem o saber, fiquei de fiscal aos soldados que andavam a capinar o quartel.
A minha função era, mais ou menos, igual às do tempo das pirâmides do Egipto, obrigava-os a trabalhar e no final do dia identificava o trabalho feito, só me faltava o chicote.
É obvio que aquela tarefa era necessária, mas mesmo assim, parecia sempre um castigo para todos.


Eu, … desenfiava-me, e ainda mais do que os soldados.

 

Numa das minhas passagens pelo trabalho, encontrei sete indivíduos sentados em amena cavaqueira.
Perguntei-lhes:
- Então Quirino, o que estão a fazer?
- Estamos a capinar meu alferes.
- O que eu vejo é só conversa e estão num sítio onde nem sequer há capim.
– Alferes, a velhice é um posto e se nós estivermos aqui o capim não volta a crescer.


Um fim-de-semana antes do Natal, tive a sorte de assistir a um mercado. O Alto Chicapa ficou muito concorrido e com muita gente das sanzalas. Era um mercado da farinha de mandioca, bem como o de algum feijão proveniente das lavras.

 

 

Era vendido em parte a dois comerciantes ou trocados por peixe seco, carne seca, óleo de palma e panos.


Conheci bem um desses comerciantes, o Sr. Capela, um homem sempre prestável, pelo menos para os militares.

Nunca me esqueci do seu cozinheiro e dos seus valentes petiscos que tão bem sabia fazer com óleo de palma, e ... daqueles frangos, esfregados com sal e gindungo, que depois de assados davam para beber uma grade de cervejas.
 

( a seguir - O meu primeiro Natal em África)

 

publicado por Alto Chicapa às 12:01

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Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

49- Uma jiboia e o ataque do Buda

(continuação de 48- Formigas quissongo e a fuga dos carregadores)

 

Nas 79 operações e patrulhamentos que o 1º grupo de combate realizou, onde não houve mortes, feridos ou acidentados, conhecemos dificuldades e muitas contrariedades, mas a sorte nunca nos abandonou porque fomos sempre audazes, disciplinados e prudentes.
Restaram, para recordar, algumas situações curiosas, como por exemplo:


A operação realizada na margem esquerda do rio Chicapa onde fomos confrontados com uma grande cobra.
Acampámos numa zona mais elevada onde começava o arvoredo, sempre o local mais seguro.
Quando um grupo nos ia abastecer de água com os cantis, ficaram estáticos a meio do percurso e frente a frente com um monstro de cabeça levantado à altura de um homem.
O Cassiano, o último do grupo voltou atrás a pedir ajuda.
Estávamos a ser postos à prova numa situação que era inédita e que teve que ser tratada com pinças.
Com algum sangue frio, abati o animal com dois tiros na cabeça, um ao lado do outro.
Mais calmos, e passada a surpresa, confrontámo-nos com uma jibóia, de seis / sete metros de comprimento e palmo e meio de largura, um bicho lindo e respeitável, daqueles que só se vêm nos filmes.
Sem o sabermos, a sorte esteve do nosso lado, porque só não fomos atacados ou mordidos devido ao facto de a cobra estar com uma cabra inteira dentro da barriga, com cornos e tudo.
No final, aproveitou-se tudo e até provei um bifinho, que sabia a peixe de rio.
Não sou, nem nunca serei, um caçador de troféus, mas guerra é guerra, ou se mata ou se morre.

 

O ataque do meu cão Buda sobre três nativos que tentavam passar dissimulados.
Estávamos muito afastados do nosso quartel, junto à nascente do rio Chiumbe, numa zona de guerra onde era proibida a circulação de civis.
Quando percorríamos um trilho, e num abrir e fechar de olhos, o cão sai disparado sobre três indivíduos, hoje já não me lembro bem como é que isto tudo acabou, mas ainda me recordo que conforme o cão avançava ouviam-se vários gritos, Buda euá, Buda euá, Buda euá … (Buda vai-te embora).
Entendi que conheciam o cão, mas nunca cheguei a perceber a ausência de tiros e a nossa permissão para aquela fuga.
Hoje, sinto que o Buda, um cão conhecido e temido na nossa zona, foi bom para nós e para eles.
 

( a seguir - Já passei por aqui e um condutor nervoso)

 

publicado por Alto Chicapa às 14:57

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Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

48- Formigas quissongo e a fuga dos carregadores

(continuação de 47- Perdidos na mata)

 

Nas 79 operações e patrulhamentos que o 1º grupo de combate realizou, onde não houve mortes, feridos ou acidentados, conhecemos dificuldades e muitas contrariedades, mas a sorte nunca nos abandonou porque fomos sempre audazes, disciplinados e prudentes.

 

Restaram, para recordar, algumas situações curiosas, como por exemplo:
 

O dia em que fomos invadidos e atacados pela quissongo.

É uma formiga com o corpo fino e avermelhado, uma cabeça relativamente grande e duas fortes mandíbulas que se cravam facilmente na carne.
Ela é persistente, consegue ultrapassar cursos de água e só não resiste ao fogo.

O ser humano e outros animais, por mais ferozes que sejam, podem ser devorados vivos.
 

Inadvertidamente, tínhamos parado num dos seus territórios. Lentamente, começaram a andar pelo interior das nossas calças, botas e pernas acima e de uma forma que parecia telecomandada somos mordidos violentamente e quase em simultâneo, parecia uma descarga eléctrica.
A aflição instalou-se, foi necessário tirar as roupas para aliviar as dolorosas ferroadas e retirar as formigas, uma a uma, que teimavam sempre em continuar agarradas à carne quando as arrancamos.
Normalmente, o corpo da formiga sai bem mas o conjunto da cabeça e as mandíbulas, é que continua no nosso corpo com as pinças pontiagudas cravadas.

 

 

A noite da fuga de dois carregadores quando numa operação junto ao rio Cassai nos deslocámos para um local que lhes causava medo.
Nunca imaginei a fuga de alguém em plena mata, mas também não fiquei admirado com o acontecimento.
Já me tinha apercebido que os carregadores andavam nervosos com o itinerário, faziam de tudo para o evitar, diziam-se doentes, sem forças, e que estavam em lugares de feitiço.


Acabou por ficar o carregador principal, o Sá Moço e mesmo assim com muitas dores de dentes.
Devido às fugas, não acreditámos nas suas queixas e como julgávamos que era um outro esquema manhoso o enfermeiro deu-lhe um comprimido laxativo.
No dia seguinte, perguntei: - Então Sá Moço? – Cá, os barriga! O pessoal ria-se com a maldade e perguntavam-lhe: - Sá Moço, vai mais um comprimido?

Enfim, hoje ainda tenho remorsos, porque também colaborei.
 

Em conclusão, o bom do Sá Moço tinha mesmo dores de dentes, que, imagino, deveriam ser muito intensas.

Para se livrar daquele tormento meteu na boca uma rudimentar faca e arrancou, assim sem mais nem menos, e pela raiz, um grande dente cariado.
Foi uma grande lição.
 

(a seguir - Uma jiboia e o ataque do Buda)

 

publicado por Alto Chicapa às 15:16

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Domingo, 2 de Novembro de 2008

47- Perdidos na mata

(continuação de 46- Formigas térmites e duas matacanhas)

 

Nas 79 operações e patrulhamentos que o 1º grupo de combate realizou, onde não houve mortes, feridos ou acidentados, conhecemos dificuldades e muitas contrariedades, mas a sorte nunca nos abandonou porque fomos sempre audazes, disciplinados e prudentes.


Restaram, para recordar, algumas situações curiosas, como por exemplo:


O dia em que me perdi na mata.

Quando decorria a nossa terceira operação, sem saber bem como, em determinado momento deixei de ter locais para referência, o mapa não conseguia ajudar, os carregadores só queriam voltar para trás, e não havia meio de se encontrar um trilho ou um simples regato.
À nossa volta, havia um denso e alto arvoredo e um terreno arenoso sem vegetação rasteira e água. Nunca consegui encontrar uma explicação para o que nos aconteceu.
Ao quinto dia já andávamos a comer ração de combate a meias, algumas folhas e umas frutas parecidas com laranjas.
Ao sexto dia, sem comida e com alguns raspanetes do capitão via rádio, lá conseguimos chegar a um pequeno curso de água que nos orientou e nos permitiu após uma longa caminhada chegar à picada de Luma-Cassai.
Com as coordenadas certas solicitei a recolha do grupo.

Em conclusão, fomos recolhidos em estado miserável e esfomeados ao princípio da tarde do sétimo dia, sem uma única resposta às nossas mensagens via rádio.
A fome e a falta de cigarros, para alguns, foi uma experiência horrível.
Quando chegámos ao quartel as palavras de conforto e de ânimo que estavamos à espera foram substituídas pela seguinte frase:

- Daqui a três dias vai novamente para a mata!
Foram momentos de desconforto, talvez piores do que uma emboscada do IN, mas já estava habituado a tudo e facilmente encarava as situações difíceis como desafios.

 

A operação entre dois rios, o Cuilo e o Luchico, onde o meu cão Buda desapareceu durante dois dias.

Foram momentos muito difíceis e intrigantes.

Temíamos o pior, pensávamos que podia ter sido comido por uma onça, mordido por uma cobra ou ter caído numa armadilha, enfim, só de me lembrar, fico arrepiado.
Tudo fizemos para o encontrar, alterámos o esquema da operação, os itinerários, retardámos os nossos movimentos, parámos e deixávamos bem expostos uma quantidade de cheiros e materiais, que ele muito bem conhecia.
Tudo parecia terrível e angustiante, mas era uma situação que mais dia, menos dia eu imaginava que pudesse acontecer.
Ao cair da tarde, íamos para a segunda noite de angústia, o Teixeira que estava numa sentinela mais avançada deu um sinal de alerta e de perigo, parecia que alguém vinha a rastejar. Movimentamo-nos em auto defesa, mas acto contínuo houve-se o Novo e o Canelas a gritarem: - Calma pessoal, pessoal é o Buda, é o Buda. Buda, vem!
Logo que ouviu o seu nome levantou-se, avançou e demonstrou todo o seu contentamento. Parecia muito cansado e magro, mas a sua felicidade era enorme. Nós, entre festejos e algumas lágrimas de contentamento também tínhamos saído de um pesadelo.
 

(a seguir - formigas quissongo e a fuga dos carregadores)

 

publicado por Alto Chicapa às 10:36

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Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

43- Operação “Pato 7212”, segundo e terceiro dia

(continuação de 42- Operação “Pato 7212”, primeiro dia)

 

No segundo dia, antes das horas de maior calor, andámos apenas meia dúzia de quilómetros.

 

 

Seguimos um pouco para sul, sem deixar qualquer indicação que o nosso verdadeiro trajecto era para oeste.

 

Ficámos perto de uma linha de água onde se tomou um banho refrescante.

 

A noite, passamo-la sem sobressaltos de maior, mas na companhia de um ou mais leões e dos seus longos rugidos. O chão até tremia.


O terceiro dia, foi bem diferente. Saímos folgados, mal começou a clarear. Progredimos, o máximo que nos foi possível, uns bons quilómetros em direcção à margem esquerda do rio Cuango.

 

Lembro-me que contrariei o plano da operação, optando pela margem esquerda, hoje não sei os verdadeiros motivos, mas naquela época, penso ter entendido que era a melhor estratégia.


Durante o percurso, tivemos o cuidado de vermos atentamente por onde íamos e de procurar vestígios. O que encontrávamos era antigo e irrelevante. As lavras estavam abandonadas, os trilhos não eram usados e a ausência de população era uma realidade.

 

Mesmo assim, estávamos perto, de uma, das conhecidas e consentidas zonas de acantonamento da UNITA, entre o Munhango e o Cassai.


Felizmente, apenas constatámos e colhemos os louros do trabalho desenvolvido, em meados de 1972, pela operação Rojão IH e pela intervenção do Agrupamento de Comandos, Raio (companhias 31, 33 e 37).
 

(a seguir - Operação “Pato 7212”, quarto e quinto dia)

 

publicado por Alto Chicapa às 14:33

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Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

40- Calejamento dos grupos de combate.

(continuação de 39- Chuva diluviana)

 

A nossa companhia após o calejamento dos grupos de combate, já habituados às dificuldades da mata, e às possíveis tácticas do IN (inimigo), desenvolvia a actividade operacional para áreas de intervenção militar, enquadradas pelos rios, Cassai, Cuango, Cuango-Mugué, Cumbi, Cucumbi, Cuilo, Luchico, Chicapa, Luchace, Luachima e Chiumbe, e incrementava o apoio social junto das populações, a partir da própria companhia no Alto Chicapa, de um destacamento na aldeia de Cambatxilonda e, na parte final da comissão, com um novo destacamento na aldeia de António Cavula.


As operações que realizámos nas matas e nos rios do Alto Chicapa, eram alternadas de cinco em cinco dias, mata / quartel, ou eventualmente de seis dias, mas eram quase sempre iguais e até o medo das minas durante o trajecto para a largada ou na recolha se mantinha, no entanto, conforme os locais, mudava a vegetação, o estado do tempo, as nossas dificuldades e uma ou outra peripécia.
 

(a seguir - Os preparativos da operação “Pato 7212")

 

publicado por Alto Chicapa às 11:57

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Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

38- Missão humanitária

(continuação de 37- Primeiro passeio pelo exterior)

 

A minha primeira saída em missão, foi humanitária. Aconteceu ao princípio de uma noite do mês de Outubro de 1972, mas de um dia que já não consigo identificar no calendário.


Um homem da aldeia de Samuchima solicitou ao comandante de companhia ajuda urgente para socorrermos uma mulher que estava em trabalho de parto há demasiado tempo, no meio de grande sofrimento e preocupação dos familiares.


Fui num jipe Williams bem velhinho na companhia de um condutor e do enfermeiro Luís.

 


Pelo caminho o enfermeiro Luís dizia que nunca tinha feito ou ajudado num parto nem tinha material próprio. Perguntei-lhe: - E porquê um alferes miliciano de minas e armadilhas?


Mesmo assim, senti-me na obrigação de tentar o melhor, com a ajuda e os conhecimentos do enfermeiro, e assistir pela primeira vez na minha vida a um parto natural, sem condições de higiene e conforto.

 


Quando chegámos, já era noite escura, e o ambiente não era nada simpático.

 

Tudo estava a acontecer numa palhota pequena de chão térreo, em cima de uma esteira e à luz de um escuro candeeiro de petróleo.

 

Havia muitas mulheres de volta em grande ladainha. O pai da criança já tinha fugido com medo das represálias da família da mulher.


- Luís, acho que só fomos chamados para aqui em desespero de causa.
- Bem, temos que fazer alguma coisa para melhorar isto!
- Vou pedir para que estas mulheres se afastem um pouco e com os faróis do Jipe, junto à porta, vai haver mais luz lá para dentro.
 

O Luís tomou a iniciativa e dirigiu-se à jovem parturiente. Vendo que no local havia cinza, terra e excremento de cabra espalhados, solicitou a duas mulheres que estavam com ela um pouco mais de limpeza no local e tratou de a desinfectar o melhor possível.
Com os dedos das mãos, (não havia luvas) tentámos “alargar e abrir espaço” para a criança nascer com mais facilidade. Mas tudo correu mal, mesmo com a muita coragem daquela mãe.
 

Aquele filho não queria nascer.
 

- Luís, na faculdade falava-se em partos provocados com soro, vamos tentar?
- Pela manhã logo se vêm os resultados!
 

Informei o chefe da aldeia e as mulheres das nossas intenções, do regresso ao quartel e do que estava feito. Pedi, para ajudarem a futura mãe numa situação grave ou quando a criança estivesse mesmo para nascer.


No povo quioco, logo que uma mulher sente os primeiros sintomas do parto, pede à mãe ou a outra mulher da família que chame a parteira (tchifungudji) e todas as mulheres que já tiveram filhos, para que auxiliem em tudo o que for necessário.
Os homens, as crianças e ainda as mulheres que tiveram relações sexuais no dia anterior não podiam assistir ao parto.


A parturiente senta-se numa esteira costas com costas com uma outra mulher, a ajudante, que lhe entrelaça os braços prendendo-a contra si. A parteira fica sentada em frente a dar continuadamente instruções.


Conforme me contaram, depois do nascimento, mais ninguém pode mexer na criança, só a ajudante e a parteira lhe podem pegar. Cortam e atam o cordão umbilical, lavam-na em água morna e entregam-na definitivamente à mãe. Esta recebe um copo de água para beber e borrifar o filho, dizendo, mais ou menos isto, para que fiques bonito e forte. No dia seguinte, há uma espécie de baptismo imunizante, que é feito por todas as crianças da aldeia com raízes, que esfregam na criança, afastando assim todos os feitiços e os males. É a partir deste momento que qualquer outra mulher poderá pegar na criança (continuam a ficar de fora as mulheres com relações sexuais efectuadas no dia anterior, porque são consideradas impuras).


Ao terceiro dia, é feriado na aldeia e dia de festa. A parturiente lava-se no rio, na altura mais quente do dia, pedindo à água que lhe dê forças e frescura. É neste dia que o pai dá um nome ao filho. O nome pode ser o de um seu antepassado, de um amigo ainda vivo, ou de um acontecimento importante que se tenha passado no dia do nascimento. Além do nome dado pelo pai ainda pode ter outro dado pela mãe, pela família desta ou pelo chefe da aldeia.
Logo que o filho recebe o nome, os pais acrescentam ao seu, o do filho, precedido de Sá, no pai, e de Ná, na mãe.
No entanto, só no acto da circuncisão, nos rapazes, ou da iniciação, nas raparigas, é que o verdadeiro nome do indivíduo será escolhido.
 

De manhã cedo quando chegámos à aldeia a criança já cá estava fora e com o cordão umbilical cortado pela parteira. Era um rapaz. Ficámos contentes com a nossa sorte e com o fim feliz daquela mãe.


O miúdo ficou a chamar-se Carlos Nosalferes.
 

 

Éramos jovens e culturalmente muito diferentes daquele povo, mas iguais perante o sentimento simples de ver nascer uma criança.


Aprendi, que nascemos iguais e até com a mesma cor, e que as dores de uma mãe são as mesmas, e que a aflição e o sucesso de um parto são suficientes para esquecer ódios ou guerras.
 

publicado por Alto Chicapa às 10:41

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Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

36- O nosso aquartelamento

(continuação de 35- As sentinelas)

 

O nosso novo aquartelamento, embora não fosse um modelo de virtudes, era, mesmo assim, muito agradável. As instalações eram amplas e funcionais.
 

Havia duas portas de armas, uma virada a leste e a outra a oeste e um amplo espaço, onde se incluía uma parada muito limpa.

 

 

Do lado esquerdo, havia uma casa com os quartos dos dois sargentos, o bar de oficiais, sargentos e furriéis, um acanhado posto de transmissões e de cripto, um forno de padeiro, a casa com os quartos dos oficiais, a messe de oficiais, sargentos e furriéis, uma cozinha rudimentar de aspecto pouco limpo ou agradável, o refeitório dos soldados, bastante gorduroso, nada confortável e apenas coberto por chapas de zinco, o depósito dos géneros alimentares onde havia frigoríficos a funcionar a petróleo, uma cantina, uma caserna pré-fabricada dormitório dos soldados, uma casa coberta de colmo que servia para trabalhos diversos, um gerador de electricidade, a oficina e o parque das viaturas, um paiol (de más recordações para os camaradas que lá estiveram presos), um local com gasolina para helicópteros, um posto de enfermagem e o posto de vigia.

 

 

No lado oposto, havia um posto de vigia, a secretaria, um pré-fabricado dormitório dos furriéis, as casernas dormitório dos soldados em edifícios pré-fabricados, que não deviam ter mais do que três anos e umas acanhadas casas de banho.


Para além destes equipamentos, ainda tínhamos uma pista em terra batida para pequenos aviões, um campo de futebol, um campo de voleibol, uma plantação de abacaxis e um pouco mais tarde uma piscina.

 


Era um local agradável, a 1240 metros de altitude, com muito verde, água e largos horizontes.


Fora do quartel, a diminuta localidade e a comunidade civil faziam lembrar em alguns pormenores a época colonial dos anos 50. A antiga casa do administrador de posto, que estava desabitada, era uma construção, segundo creio, dos começos do século, com planta quadrada, com uma boa área coberta, que a protege das fortes chuvadas e fornece um bom local de permanência, nas horas de calor. Nas traseiras havia um grande cercado com duas frondosas mangueiras.

 

 

Em pleno interior de África e sem estradas, era um oásis e um luxo que poucos tinham na metrópole.


O clima, que era excelente, era menos quente do que em Sacassange e tinha também muitas semelhanças com o da metrópole.

publicado por Alto Chicapa às 12:58

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Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

35- As sentinelas

(continuação de 34- Alto Chicapa)

 


 

Este texto contém algumas frases que são impróprias, para menores ou pessoas sensíveis.

 

Voltando às noites, que eram normalmente muito escuras, mas onde se via tudo, reparei que à distância de centena e meia de metros havia uma sentinela a fumar no alto da vigia. Via-se perfeitamente o momento em que estava a puxar uma fumaça e a ponta do cigarro mais brilhante, tão brilhante que dava para adivinhar os contornos da cara.
 

Aproximei-me, e disse-lhe:
- Ouve lá, oh B.!
- Queres ir encaixotado para Trás-os-Montes?
- Os turras abrem-te dois buracos na cabeça, um à frente e o outro atrás!
- És um autêntico anjinho, ao menos respeita os outros e a segurança quando estás de sentinela!
Na manhã seguinte, o rapaz encheu-se de razões e como não gostou nada daquela chamada de atenção foi queixar-se ao alferes responsável pelo seu grupo de combate que acabou por se zangar e ainda afirmou com ares de ofendido que ali quem mandava era ele.


Uma outra vez, encontrei as sentinelas a jogar às cartas. Disse-lhes qualquer coisa, que não me recordo, e rasguei-lhes as cartas. Zangaram-se como era obvio, devolveram-me ameaças, mas ignorei-as, e deixei-os orgulhosamente sós.


Ainda, uma outra vez, mas esta foi muito penosa para mim, não sei os motivos do meu desgosto naquele momento, sei que fiquei arrependido de o ter feito. Enquanto o moço dormia profundamente e na paz dos anjos, levei-lhe a arma para o meu quarto. Hoje, tenho a certeza que o deveria ter acordado. Concretamente, não conhecia a vida do rapaz nem os seus problemas, só sabia que pertencia ao pelotão do alferes C. De manhã, apareceu no meu quarto. Garantiu-me que tinha apanhado um valente susto e uma grande lição. Recebi dele provas de um grande carácter e uma grande lição de humildade. Onde estiveres, bem hajas.

 

Finalmente, um outro caso, este por volta das 4 horas da manhã (quase dia em África), com um elemento do meu grupo de combate.
- Então A. que se passa?
- Alferes não diga nada ao Capitão, só estava a esgalhar uma pívia à maneira.
- Isso, eu vi, cheguei até aqui, nem davas por mim, os outros levavam-te ao colo.
- Oh meu alferes, peço desculpa, estava a olhar para a loiraça do calendário e comecei a lembrar-me daquela moça “explosiva” do cinema em Henrique de Carvalho, moreninha, calças justas, um valente papo e um par de mamas sem sutiã a quererem saltar para fora da camiseta.
- Dava-lhe cá uma martelada e enterrava-a até aos tomates e tenho a certeza de que ela se rebolaria a pedir mais.
- Repara A., o capitão não é para aqui chamado e também percebi o motivo do teu desatino, mas podemos levar com uns balázios se não estiveres atento e compreende que estávamos todos a confiar em ti.
- Alferes, tem toda a razão, somos amigos e não volta acontecer, mas acredite …, para mim, aquela mulher é só cona!


O que acabei de relatar, foram casos isolados e não aconteciam com muita frequência, como eventualmente poderá parecer nesta narrativa.

 

Pelo contrário, com a velhice, com o isolamento do posto de vigilância e com alguns momentos de arrepio, a sentinela já impunha a si própria uma auto defesa intermédia e interessante, colocava pequenas e engenhosas armadilhas, até criava um ponto de diversão que tornava o intruso em alvo fácil, ou pedia a ajuda de um amigo para colaborar no serviço.


Não estou arrependido de ter estado naquela tropa.

 

Valeu a pena viver aqueles momentos e ver a camaradagem de muitos e dos soldados que estavam sempre voluntários para tudo, mesmo vivendo em condições menores e com muito pouco dinheiro.
 

publicado por Alto Chicapa às 13:39

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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

34- Alto Chicapa

(continuação de 33- Alto Chicapa, a minha nova residência)

 

Neste Alto Chicapa, a única população branca, além da tropa e do administrador, um miúdo ainda de borbulhas na cara como nós, eram os funcionários da OPDVCA / DGS, que raramente eram vistos neste local e dois comerciantes, um deles o Sr. Capela.

 


Em torno deste núcleo social havia a aldeia junto ao posto, aldeia dos GES (grupo 305 e 306), alguns elementos de Milícias, os Cipaios, os Sobas e ocasionalmente alguns “guerrilheiros” de um grupo de flechas.


Os GES (Grupo Especial de Combate) eram a tentativa da tropa colonial ter uma espécie de tropa profissional local recrutada nos quimbos. Estes eram maioritariamente fracos “militares” sem preparação ou equipamento e nada cuidados. Vestiam camuflados muito velhos e rotos ou roupa diversa pouco cuidada. Viviam com as suas famílias numa sanzala junto ao quartel. Tinham a seu favor, o excelente conhecimento das matas locais, dos trilhos e cursos de água. Viviam da guerra combatendo mais ou menos ao lado da tropa. Digo mais ou menos, porque alguns faziam ausências prolongadas na mata ou por jogo duplo ou para a recolha de diamantes. Diziam, que eram o equivalente aos Comandos, mas nestes, houve certamente um grande engano porque eram apenas umas pobres milícias.


As Milícias eram grupos de paramilitares recrutados localmente e enquadrados pelo exército.


Os Cipaios eram a polícia da Administração de Posto, recrutados entre a população local.


Os Sobas eram personagens, em minha opinião, decorativas que se limitavam a serem intermediários entre os seus da sanzala e a administração do posto.


Os Flechas eram outra força colonial, formada, treinada e dirigida pela DGS/PIDE segundo o modelo dos “seolous scouts” da Rodésia. Eram, recrutados entre indivíduos com ligações ao IN ou dissidentes, bons guerrilheiros, bem preparados e temidos. Considerados bons pisteiros e muito eficazes na guerrilha devido às informações paralelas que recebiam da DGS e por viverem e conhecerem muito bem a mata. Eram comandados operacionalmente pelo inspector da DGS, Óscar Cardoso.


O posto administrativo estava estrategicamente situado entre várias aldeias. Lembro-me ainda do nome de algumas, como por exemplo, Samunge, Samuchima, Cambatxilonda, António Cavula, Nandonge, Muaxiteca, Muachiava, Muambumba, Samuange.

 


Não me dei muito mal com a tropa, mas naqueles dias mais difíceis abandonava-a imediatamente sem qualquer hesitação ou saudade.

 


Mesmo com a minha inexperiência de menino, não tive de me impor para merecer o respeito do pelotão. Adaptei-me com alguma facilidade às inseguranças, aos medos, às limitações e às exigências, enfim, tive sorte, fui aceite. Ah! … e quanto ao rancho, também era um pouco “lateiro”.


Felizmente, a nossa vida no Alto Chicapa era substancialmente diferente daquela que tínhamos tido em Sacassange, mesmo estando mais longe de tudo e isolados.


O abastecimento dos frescos, quando o estado do tempo e o estado da pista de aviação o permitiam, era feito semanalmente por um pequeno avião mono motor.

 

 

Os restantes géneros eram entregues tempos a tempos por uma viatura civil ou militar.


A nossa actividade nos grupos de combate, distribuía-se por patrulhas e operações regulares de 5 a 6 dias na mata, acções de apoio às populações (enfermagem, obras e infra-estruturas) e permanência em destacamentos.


As noites, também eram um mundo incrível de vida. Havia, quase sempre, um vasto manto escuro manchado de estrelas de uma nitidez espantosa onde se viam, milhares de asas que se agitavam e ondulavam de sons. Ao longe, ouviam-se os mais variados ruídos próprios da selva.

 

Com a nossa experiência, sabíamos que, enquanto houvesse esta sinfonia à nossa volta e toda esta actividade, havia segurança.


Como em África anoitece muito cedo, geralmente por volta das 17 horas, voltei aos meus hábitos da metrópole, um pequeno passeio ou caminhada ao princípio da noite. O Alto Chicapa tinha todas essas potencialidades e proporcionava-me esse prazer. Fazia-o sempre que podia, com muito agrado, mas sem as horas ou os locais marcados, tal e qual como a guerrilha me tinha ensinado, não passar, duas vezes, à mesma hora ou no mesmo sítio.
 

publicado por Alto Chicapa às 11:13

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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

32- O que é que eu faço aqui?

(continuação de 31- Ordem de movimento para o Alto Chicapa)


Aconteceu, muitas vezes, ficar a pensar: - O que é que eu faço aqui? – Que necessidade tenho eu de estar aqui?

 

Mesmo assim, saí de Sacassange para o Alto Chicapa com motivos para recordar, gostava das pessoas daquele povo luena (malwena), dos batuques e dos merengues no Canage, que eram sempre muito ritmados e de grande beleza, havia sempre um grupo de homens, colocados ao centro, tocavam os tambores, e o resto dançava de volta, velhos e novos, mulheres com filhos às costas, mexendo-se com espantosa facilidade e cantando ao mesmo tempo uma linguagem que nunca cheguei a perceber. O Soba e os Mais Velhos, todos muito velhos, vestidos de umas velhas fardas de um luxo esfarrapado, assistiam sentados em banquinhos baixos, com uma dignidade imperturbável.


Aquele mundo africano era lindo, estava cheio de vida, de juventude e de imaginação.


As casas de adobe e de capim, algumas construções sobre estacas, a fuba, o milho, o feijão, a batata-doce, os panos soltos com que as mulheres se cobriam, a imensa proliferação de crianças de todos os tamanhos, as estupendas figuras das meninas prontas para o casamento rentável para a família, tudo isto era de facto estranhamente original, belo e apaixonante, apesar da pobreza.


Umas vezes vi tragédias, miséria e falta de sentimentos, noutras, vi finais felizes e até sonhos.

 

Deste bocadinho de comissão guardei comigo, para hoje partilhar com amigos e outras pessoas, mapas, fotografias, slides, memórias e umas garrafas de whisky. Outras, impartilháveis, como os cheiros, os sabores, a poeira, a lama, o cansaço e a nostalgia depois de cada aerograma, ainda são, mesmo assim, levemente possíveis de serem descritas. Outras coisas, não podiam vir, vão partir comigo para sempre até que a morte nos apague, os amigos sem cor e que nunca mais vi, as matas que ainda não conheciam a ganância do ser humano, os horizontes, o medo, a alegria, a descoberta e a camaradagem.


Os portugueses que por ali estiveram noutras épocas, alguns são acusados, de terem matado, estropiado e escravizado. Não foi grandioso ou louvável para nós, mas hoje ninguém os pode avaliar e seria insuportável e de desconfiar de tais intenções, porque julgar os outros e a história tendo a vantagem do tempo diante dos nossos olhos, é duvidoso.
 

publicado por Alto Chicapa às 12:53

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Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

31- Ordem de movimento para o Alto Chicapa

(continuação de 30- Chuva e trovoada)


Estávamos no final do cacimbo (época seca que vai de Maio a Setembro), a nossa companhia preparava-se para uma rendição inesperada em Sacassange, que de acordo com a ordem de movimento do Batalhão de Caçadores 3870, partiríamos em viaturas civis com destino ao Alto Chicapa.


Utilizámos o itinerário: Luso, Luma-Cassai, Alto Chicapa.


Esta deslocação, foi, para mim, a viagem pelas matas de todos os medos. Seguimos, por picadas que não eram picadas, íamos encolhidos atrás dos tapais das viaturas civis como gado a caminho do matadouro, com muito calor, suor, mosquitos, pó, ansiedade, e muitos temores.

 


Percorremos terras e lugares inóspitos, onde nada havia, onde só a esperança, a solidariedade e a amizade não eram palavras vãs.


Fomos render a Companhia de Caçadores 2697 (?).


A sede do Batalhão também rodou do Lucusse para Henrique de Carvalho.
 

publicado por Alto Chicapa às 11:18

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