Domingo, 16 de Novembro de 2008

51- Um fim-de-semana antes do Natal

(continuação de 50- Já passei por aqui e um condutor nervoso)

 

A vida no quartel mantinha-se sempre igual e rotineira, mas era muito exigente para aquele meio, obrigava-nos a uma certa postura diária e a muita disciplina no vestuário, e ao cumprimento dos horários.


Entre o capinar e a plantação de abacaxis, havia sempre muitos trabalhos de manutenção ao quartel e de obras nas sanzalas.


Um certo dia, julgo que fui premiado sem o saber, fiquei de fiscal aos soldados que andavam a capinar o quartel.
A minha função era, mais ou menos, igual às do tempo das pirâmides do Egipto, obrigava-os a trabalhar e no final do dia identificava o trabalho feito, só me faltava o chicote.
É obvio que aquela tarefa era necessária, mas mesmo assim, parecia sempre um castigo para todos.


Eu, … desenfiava-me, e ainda mais do que os soldados.

 

Numa das minhas passagens pelo trabalho, encontrei sete indivíduos sentados em amena cavaqueira.
Perguntei-lhes:
- Então Quirino, o que estão a fazer?
- Estamos a capinar meu alferes.
- O que eu vejo é só conversa e estão num sítio onde nem sequer há capim.
– Alferes, a velhice é um posto e se nós estivermos aqui o capim não volta a crescer.


Um fim-de-semana antes do Natal, tive a sorte de assistir a um mercado. O Alto Chicapa ficou muito concorrido e com muita gente das sanzalas. Era um mercado da farinha de mandioca, bem como o de algum feijão proveniente das lavras.

 

 

Era vendido em parte a dois comerciantes ou trocados por peixe seco, carne seca, óleo de palma e panos.


Conheci bem um desses comerciantes, o Sr. Capela, um homem sempre prestável, pelo menos para os militares.

Nunca me esqueci do seu cozinheiro e dos seus valentes petiscos que tão bem sabia fazer com óleo de palma, e ... daqueles frangos, esfregados com sal e gindungo, que depois de assados davam para beber uma grade de cervejas.
 

( a seguir - O meu primeiro Natal em África)

 

publicado por Alto Chicapa às 12:01

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Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

48- Formigas quissongo e a fuga dos carregadores

(continuação de 47- Perdidos na mata)

 

Nas 79 operações e patrulhamentos que o 1º grupo de combate realizou, onde não houve mortes, feridos ou acidentados, conhecemos dificuldades e muitas contrariedades, mas a sorte nunca nos abandonou porque fomos sempre audazes, disciplinados e prudentes.

 

Restaram, para recordar, algumas situações curiosas, como por exemplo:
 

O dia em que fomos invadidos e atacados pela quissongo.

É uma formiga com o corpo fino e avermelhado, uma cabeça relativamente grande e duas fortes mandíbulas que se cravam facilmente na carne.
Ela é persistente, consegue ultrapassar cursos de água e só não resiste ao fogo.

O ser humano e outros animais, por mais ferozes que sejam, podem ser devorados vivos.
 

Inadvertidamente, tínhamos parado num dos seus territórios. Lentamente, começaram a andar pelo interior das nossas calças, botas e pernas acima e de uma forma que parecia telecomandada somos mordidos violentamente e quase em simultâneo, parecia uma descarga eléctrica.
A aflição instalou-se, foi necessário tirar as roupas para aliviar as dolorosas ferroadas e retirar as formigas, uma a uma, que teimavam sempre em continuar agarradas à carne quando as arrancamos.
Normalmente, o corpo da formiga sai bem mas o conjunto da cabeça e as mandíbulas, é que continua no nosso corpo com as pinças pontiagudas cravadas.

 

 

A noite da fuga de dois carregadores quando numa operação junto ao rio Cassai nos deslocámos para um local que lhes causava medo.
Nunca imaginei a fuga de alguém em plena mata, mas também não fiquei admirado com o acontecimento.
Já me tinha apercebido que os carregadores andavam nervosos com o itinerário, faziam de tudo para o evitar, diziam-se doentes, sem forças, e que estavam em lugares de feitiço.


Acabou por ficar o carregador principal, o Sá Moço e mesmo assim com muitas dores de dentes.
Devido às fugas, não acreditámos nas suas queixas e como julgávamos que era um outro esquema manhoso o enfermeiro deu-lhe um comprimido laxativo.
No dia seguinte, perguntei: - Então Sá Moço? – Cá, os barriga! O pessoal ria-se com a maldade e perguntavam-lhe: - Sá Moço, vai mais um comprimido?

Enfim, hoje ainda tenho remorsos, porque também colaborei.
 

Em conclusão, o bom do Sá Moço tinha mesmo dores de dentes, que, imagino, deveriam ser muito intensas.

Para se livrar daquele tormento meteu na boca uma rudimentar faca e arrancou, assim sem mais nem menos, e pela raiz, um grande dente cariado.
Foi uma grande lição.
 

(a seguir - Uma jiboia e o ataque do Buda)

 

publicado por Alto Chicapa às 15:16

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Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

45- Operação "Pato 7212", sexto dia

(continuação de 44- Operação "Pato 7212", quarto e quinto dia)

 

Ao sexto dia, pelas treze horas, chegámos ao ponto de recolha numa zona plana e de vegetação dispersa.

 

Patrulhámos em círculo a área envolvente e avançávamos o máximo possível ao longo da picada.

 

 

O deserto humano e a ausência de vestígios mantinham-se.

 

Tal como tinha acontecido na largada, a recolha era feita por três ou quatro Unimogues ou por uma Berliet e dois Unimogues e mais cinco militares para protecção às viaturas.

 

Sentia-me muito à vontade e sem medo em plena selva africana, inclusive até conseguia compensar alguma alimentação enlatada por outro tipo de alimentos mais frescos e calóricos, mas as deslocações na picada alteravam de forma inexplicável o meu estado de anímico e eram o momento que mais temia.


A estadia na mata transformava a nossa aparência. Ficávamos irreconhecíveis, mal cheirosos, a barba por fazer, cansados, mal alimentados e carentes de um sono descansado numa cama.
Quando estávamos integrados no grupo e a conviver diariamente não se prestava atenção à transformação, íamo-nos habituando à degradação progressiva da nossa imagem, e só dávamos conta dos estragos reais quando regressados ao quartel íamos a um espelho.
 

(a seguir - formigas térmitas e duas matacanhas)

 

publicado por Alto Chicapa às 09:55

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Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

43- Operação “Pato 7212”, segundo e terceiro dia

(continuação de 42- Operação “Pato 7212”, primeiro dia)

 

No segundo dia, antes das horas de maior calor, andámos apenas meia dúzia de quilómetros.

 

 

Seguimos um pouco para sul, sem deixar qualquer indicação que o nosso verdadeiro trajecto era para oeste.

 

Ficámos perto de uma linha de água onde se tomou um banho refrescante.

 

A noite, passamo-la sem sobressaltos de maior, mas na companhia de um ou mais leões e dos seus longos rugidos. O chão até tremia.


O terceiro dia, foi bem diferente. Saímos folgados, mal começou a clarear. Progredimos, o máximo que nos foi possível, uns bons quilómetros em direcção à margem esquerda do rio Cuango.

 

Lembro-me que contrariei o plano da operação, optando pela margem esquerda, hoje não sei os verdadeiros motivos, mas naquela época, penso ter entendido que era a melhor estratégia.


Durante o percurso, tivemos o cuidado de vermos atentamente por onde íamos e de procurar vestígios. O que encontrávamos era antigo e irrelevante. As lavras estavam abandonadas, os trilhos não eram usados e a ausência de população era uma realidade.

 

Mesmo assim, estávamos perto, de uma, das conhecidas e consentidas zonas de acantonamento da UNITA, entre o Munhango e o Cassai.


Felizmente, apenas constatámos e colhemos os louros do trabalho desenvolvido, em meados de 1972, pela operação Rojão IH e pela intervenção do Agrupamento de Comandos, Raio (companhias 31, 33 e 37).
 

(a seguir - Operação “Pato 7212”, quarto e quinto dia)

 

publicado por Alto Chicapa às 14:33

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