Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

38- Missão humanitária

(continuação de 37- Primeiro passeio pelo exterior)

 

A minha primeira saída em missão, foi humanitária. Aconteceu ao princípio de uma noite do mês de Outubro de 1972, mas de um dia que já não consigo identificar no calendário.


Um homem da aldeia de Samuchima solicitou ao comandante de companhia ajuda urgente para socorrermos uma mulher que estava em trabalho de parto há demasiado tempo, no meio de grande sofrimento e preocupação dos familiares.


Fui num jipe Williams bem velhinho na companhia de um condutor e do enfermeiro Luís.

 


Pelo caminho o enfermeiro Luís dizia que nunca tinha feito ou ajudado num parto nem tinha material próprio. Perguntei-lhe: - E porquê um alferes miliciano de minas e armadilhas?


Mesmo assim, senti-me na obrigação de tentar o melhor, com a ajuda e os conhecimentos do enfermeiro, e assistir pela primeira vez na minha vida a um parto natural, sem condições de higiene e conforto.

 


Quando chegámos, já era noite escura, e o ambiente não era nada simpático.

 

Tudo estava a acontecer numa palhota pequena de chão térreo, em cima de uma esteira e à luz de um escuro candeeiro de petróleo.

 

Havia muitas mulheres de volta em grande ladainha. O pai da criança já tinha fugido com medo das represálias da família da mulher.


- Luís, acho que só fomos chamados para aqui em desespero de causa.
- Bem, temos que fazer alguma coisa para melhorar isto!
- Vou pedir para que estas mulheres se afastem um pouco e com os faróis do Jipe, junto à porta, vai haver mais luz lá para dentro.
 

O Luís tomou a iniciativa e dirigiu-se à jovem parturiente. Vendo que no local havia cinza, terra e excremento de cabra espalhados, solicitou a duas mulheres que estavam com ela um pouco mais de limpeza no local e tratou de a desinfectar o melhor possível.
Com os dedos das mãos, (não havia luvas) tentámos “alargar e abrir espaço” para a criança nascer com mais facilidade. Mas tudo correu mal, mesmo com a muita coragem daquela mãe.
 

Aquele filho não queria nascer.
 

- Luís, na faculdade falava-se em partos provocados com soro, vamos tentar?
- Pela manhã logo se vêm os resultados!
 

Informei o chefe da aldeia e as mulheres das nossas intenções, do regresso ao quartel e do que estava feito. Pedi, para ajudarem a futura mãe numa situação grave ou quando a criança estivesse mesmo para nascer.


No povo quioco, logo que uma mulher sente os primeiros sintomas do parto, pede à mãe ou a outra mulher da família que chame a parteira (tchifungudji) e todas as mulheres que já tiveram filhos, para que auxiliem em tudo o que for necessário.
Os homens, as crianças e ainda as mulheres que tiveram relações sexuais no dia anterior não podiam assistir ao parto.


A parturiente senta-se numa esteira costas com costas com uma outra mulher, a ajudante, que lhe entrelaça os braços prendendo-a contra si. A parteira fica sentada em frente a dar continuadamente instruções.


Conforme me contaram, depois do nascimento, mais ninguém pode mexer na criança, só a ajudante e a parteira lhe podem pegar. Cortam e atam o cordão umbilical, lavam-na em água morna e entregam-na definitivamente à mãe. Esta recebe um copo de água para beber e borrifar o filho, dizendo, mais ou menos isto, para que fiques bonito e forte. No dia seguinte, há uma espécie de baptismo imunizante, que é feito por todas as crianças da aldeia com raízes, que esfregam na criança, afastando assim todos os feitiços e os males. É a partir deste momento que qualquer outra mulher poderá pegar na criança (continuam a ficar de fora as mulheres com relações sexuais efectuadas no dia anterior, porque são consideradas impuras).


Ao terceiro dia, é feriado na aldeia e dia de festa. A parturiente lava-se no rio, na altura mais quente do dia, pedindo à água que lhe dê forças e frescura. É neste dia que o pai dá um nome ao filho. O nome pode ser o de um seu antepassado, de um amigo ainda vivo, ou de um acontecimento importante que se tenha passado no dia do nascimento. Além do nome dado pelo pai ainda pode ter outro dado pela mãe, pela família desta ou pelo chefe da aldeia.
Logo que o filho recebe o nome, os pais acrescentam ao seu, o do filho, precedido de Sá, no pai, e de Ná, na mãe.
No entanto, só no acto da circuncisão, nos rapazes, ou da iniciação, nas raparigas, é que o verdadeiro nome do indivíduo será escolhido.
 

De manhã cedo quando chegámos à aldeia a criança já cá estava fora e com o cordão umbilical cortado pela parteira. Era um rapaz. Ficámos contentes com a nossa sorte e com o fim feliz daquela mãe.


O miúdo ficou a chamar-se Carlos Nosalferes.
 

 

Éramos jovens e culturalmente muito diferentes daquele povo, mas iguais perante o sentimento simples de ver nascer uma criança.


Aprendi, que nascemos iguais e até com a mesma cor, e que as dores de uma mãe são as mesmas, e que a aflição e o sucesso de um parto são suficientes para esquecer ódios ou guerras.
 

publicado por Alto Chicapa às 10:41

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