Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

16- O aquartelamento de Sacassange

(continuação de 15- Atirados para um comboio)


Completamente esgotados, chegámos ao nosso local de destino o aquartelamento de Sacassange nos arredores da cidade do Luso.

 


Fomos calorosamente recebidos pelos militares que íamos render e que aguardavam ansiosos a nossa chegada.


Era um aquartelamento pouco cuidado que mais parecia um destacamento. As instalações eram precárias e acanhadas. Do que me lembro, havia uma porta de armas, a casa dos oficiais, o depósito de géneros, a secretaria, uma messe, um posto de vigia alto, o forno do pão, o refeitório dos soldados, todo aberto para que o ar corra livremente, apenas coberto pela chapa ondulada de zinco para protecção do sol e das chuvadas, a cozinha e uma cantina. As oficinas e a arrecadação de material ficavam próximas das casernas dos soldados.

 

 


O aspecto mais agradável do aquartelamento é que ele ficava num planalto, lado a lado com um pequeno rio afluente do rio Luena.

 

 

O clima, muito diferente do de Luanda, é quase idêntico ao da metrópole com calor suportável durante o dia, e fresco durante a noite. Não dispensava o uso de cobertores.

 


Estava localizado num antigo colonato, uma zona agrícola que já há algum tempo tinha sido abandonada. Os madeireiros em número reduzido, também deveriam ter sido bastantes na região. O desnível em relação ao mar era de 1300 metros e ficava a poucos quilómetros do Luso (+/- 14 km) na estrada para o Lucusse e para Gago Coutinho. Nas proximidades, 2 a 3 quilómetros, havia uma grande povoação, a sanzala do Moxico Velho.

 


O que tive de fazer nos primeiros dias estava longe de ser interessante mas era importante. Começava o meu verdadeiro papel nesta estúpida guerra, que não deveria ser minha, apesar de me ver metido nela. Ajudei na inventariação e recepção de algum material, juntei monótonas e enfadonhas listas de material, com assinaturas conjuntas de quem fica e de quem parte. Eram relações de todo o tipo de material existente, que servirão, mais tarde, para uma nova conferência e transmissão, quando chegar a nossa vez de sermos rendidos por outro grupo.

 


Contava-se que nas rendições havia sempre a tendência para algumas aldrabices, era o “desenrasca” da tropa. Cobertores dobrados ao meio para serem contados por dois, vasilhas de azeite e de óleo em que metade era água, guinchos de viatura sem o mecanismo interior ou a peça que era contada depois saia por uma porta entrava por outra porta e voltava a ser contada, enfim sempre me disseram que a tropa manda desenrascar, mas não podes ser apanhado.
 

publicado por Alto Chicapa às 15:21

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