Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008

34- Alto Chicapa

(continuação de 33- Alto Chicapa, a minha nova residência)

 

Neste Alto Chicapa, a única população branca, além da tropa e do administrador, um miúdo ainda de borbulhas na cara como nós, eram os funcionários da OPDVCA / DGS, que raramente eram vistos neste local e dois comerciantes, um deles o Sr. Capela.

 


Em torno deste núcleo social havia a aldeia junto ao posto, aldeia dos GES (grupo 305 e 306), alguns elementos de Milícias, os Cipaios, os Sobas e ocasionalmente alguns “guerrilheiros” de um grupo de flechas.


Os GES (Grupo Especial de Combate) eram a tentativa da tropa colonial ter uma espécie de tropa profissional local recrutada nos quimbos. Estes eram maioritariamente fracos “militares” sem preparação ou equipamento e nada cuidados. Vestiam camuflados muito velhos e rotos ou roupa diversa pouco cuidada. Viviam com as suas famílias numa sanzala junto ao quartel. Tinham a seu favor, o excelente conhecimento das matas locais, dos trilhos e cursos de água. Viviam da guerra combatendo mais ou menos ao lado da tropa. Digo mais ou menos, porque alguns faziam ausências prolongadas na mata ou por jogo duplo ou para a recolha de diamantes. Diziam, que eram o equivalente aos Comandos, mas nestes, houve certamente um grande engano porque eram apenas umas pobres milícias.


As Milícias eram grupos de paramilitares recrutados localmente e enquadrados pelo exército.


Os Cipaios eram a polícia da Administração de Posto, recrutados entre a população local.


Os Sobas eram personagens, em minha opinião, decorativas que se limitavam a serem intermediários entre os seus da sanzala e a administração do posto.


Os Flechas eram outra força colonial, formada, treinada e dirigida pela DGS/PIDE segundo o modelo dos “seolous scouts” da Rodésia. Eram, recrutados entre indivíduos com ligações ao IN ou dissidentes, bons guerrilheiros, bem preparados e temidos. Considerados bons pisteiros e muito eficazes na guerrilha devido às informações paralelas que recebiam da DGS e por viverem e conhecerem muito bem a mata. Eram comandados operacionalmente pelo inspector da DGS, Óscar Cardoso.


O posto administrativo estava estrategicamente situado entre várias aldeias. Lembro-me ainda do nome de algumas, como por exemplo, Samunge, Samuchima, Cambatxilonda, António Cavula, Nandonge, Muaxiteca, Muachiava, Muambumba, Samuange.

 


Não me dei muito mal com a tropa, mas naqueles dias mais difíceis abandonava-a imediatamente sem qualquer hesitação ou saudade.

 


Mesmo com a minha inexperiência de menino, não tive de me impor para merecer o respeito do pelotão. Adaptei-me com alguma facilidade às inseguranças, aos medos, às limitações e às exigências, enfim, tive sorte, fui aceite. Ah! … e quanto ao rancho, também era um pouco “lateiro”.


Felizmente, a nossa vida no Alto Chicapa era substancialmente diferente daquela que tínhamos tido em Sacassange, mesmo estando mais longe de tudo e isolados.


O abastecimento dos frescos, quando o estado do tempo e o estado da pista de aviação o permitiam, era feito semanalmente por um pequeno avião mono motor.

 

 

Os restantes géneros eram entregues tempos a tempos por uma viatura civil ou militar.


A nossa actividade nos grupos de combate, distribuía-se por patrulhas e operações regulares de 5 a 6 dias na mata, acções de apoio às populações (enfermagem, obras e infra-estruturas) e permanência em destacamentos.


As noites, também eram um mundo incrível de vida. Havia, quase sempre, um vasto manto escuro manchado de estrelas de uma nitidez espantosa onde se viam, milhares de asas que se agitavam e ondulavam de sons. Ao longe, ouviam-se os mais variados ruídos próprios da selva.

 

Com a nossa experiência, sabíamos que, enquanto houvesse esta sinfonia à nossa volta e toda esta actividade, havia segurança.


Como em África anoitece muito cedo, geralmente por volta das 17 horas, voltei aos meus hábitos da metrópole, um pequeno passeio ou caminhada ao princípio da noite. O Alto Chicapa tinha todas essas potencialidades e proporcionava-me esse prazer. Fazia-o sempre que podia, com muito agrado, mas sem as horas ou os locais marcados, tal e qual como a guerrilha me tinha ensinado, não passar, duas vezes, à mesma hora ou no mesmo sítio.
 

publicado por Alto Chicapa às 11:13

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Domingo, 21 de Setembro de 2008

33- Alto Chicapa, a minha nova residência

(continuação de 32- O que é que eu faço aqui?)

 

Encontrava-me de novo entre nativos, quiocos (tutchokwe) e minungos (tuminungu) de língua nativa tchokwe, a cerca de 300 kms da cidade de Henrique de Carvalho, 6 a 10 horas, entre picadas e asfalto, numa Berliet e um Unimogue ou a 55 minutos num avião mono motor.


Enfim, tudo era, mais uma vez, novo para mim, tirando a mata que já conhecia.


A experiência adquirida na 1ª parte da nossa comissão, em Sacassange e no destacamento do Canage, levou-me a ser mais perfeccionista e um pouco mais calculista. Dispensava os problemas e queria a todo o custo ir direitinho para a “peluda” (vida civil).


Estávamos numa terra que não era a nossa. Sabia que, pelo evoluir da guerra e pelas reais fraquezas nos movimentos de libertação, o regresso só podia depender essencialmente de nós.


Depois do que já tinha vivido em África, sabia que a receita, para todos nós, era estarmos ocupados e o mais longe possível da boa vida que só trazia problemas.


Mas, nem tudo era assim tão simples. Era necessária uma grande presença de espírito e muita capacidade de encaixe para enfrentar as situações adversas e as fraquezas próprias de um ser humano.


É por estas coisas, que eu sinto, que tudo isto, foi uma escola de vida, onde grandes valentões ficaram sem coragem e frieza alguma e indivíduos por quem à primeira vista não se dá nada por eles, revelaram-se verdadeiros senhores de sangue frio e coração quente.


Tínhamos de ser duros no momento exacto, mas não era necessário chegar à dureza cega como vinha acontecendo com alguma frequência. Até mesmo entre militares graduados e homens feitos, alguns não sabiam perdoar, não faziam por esquecer situações menos correctas dos outros e não conseguiam manter as relações adequadas e equilibradas com todas as pessoas.

 

Efectivamente, não era fácil, e era a pior das guerras.
 

Por exemplo, a rigidez do nosso capitão, comandante da companhia, impedia mais do que uma camaradagem de ocasião. Era um homem mal disposto, complexo, com alguns traumas ou medos e não sabia perdoar. Resolvia tudo com a punição.

 

Julgo que ainda há, por aí, muito boa gente com razões de sobra para se lamentar com certas atitudes de outros tempos, mas história é história e o homem tem sempre o direito a redimir-se e vou mais além, águas passadas não movem moinhos.
 

Em minha opinião, os oficias, onde estou incluído, não estão isentos de culpas, cada um vivia praticamente para si próprio, para as cartas que recebia e enviava, para o pelotão, para as saídas para a mata, para os trabalhos com obras de construção nas aldeias, para os destacamentos, para ser o melhor e acima de tudo com a preocupação da sobrevivência a qualquer preço.


Onde se ia vendo mais espírito de grupo e de camaradagem era ao nível dos furriéis.
 

publicado por Alto Chicapa às 15:20

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Quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

32- O que é que eu faço aqui?

(continuação de 31- Ordem de movimento para o Alto Chicapa)


Aconteceu, muitas vezes, ficar a pensar: - O que é que eu faço aqui? – Que necessidade tenho eu de estar aqui?

 

Mesmo assim, saí de Sacassange para o Alto Chicapa com motivos para recordar, gostava das pessoas daquele povo luena (malwena), dos batuques e dos merengues no Canage, que eram sempre muito ritmados e de grande beleza, havia sempre um grupo de homens, colocados ao centro, tocavam os tambores, e o resto dançava de volta, velhos e novos, mulheres com filhos às costas, mexendo-se com espantosa facilidade e cantando ao mesmo tempo uma linguagem que nunca cheguei a perceber. O Soba e os Mais Velhos, todos muito velhos, vestidos de umas velhas fardas de um luxo esfarrapado, assistiam sentados em banquinhos baixos, com uma dignidade imperturbável.


Aquele mundo africano era lindo, estava cheio de vida, de juventude e de imaginação.


As casas de adobe e de capim, algumas construções sobre estacas, a fuba, o milho, o feijão, a batata-doce, os panos soltos com que as mulheres se cobriam, a imensa proliferação de crianças de todos os tamanhos, as estupendas figuras das meninas prontas para o casamento rentável para a família, tudo isto era de facto estranhamente original, belo e apaixonante, apesar da pobreza.


Umas vezes vi tragédias, miséria e falta de sentimentos, noutras, vi finais felizes e até sonhos.

 

Deste bocadinho de comissão guardei comigo, para hoje partilhar com amigos e outras pessoas, mapas, fotografias, slides, memórias e umas garrafas de whisky. Outras, impartilháveis, como os cheiros, os sabores, a poeira, a lama, o cansaço e a nostalgia depois de cada aerograma, ainda são, mesmo assim, levemente possíveis de serem descritas. Outras coisas, não podiam vir, vão partir comigo para sempre até que a morte nos apague, os amigos sem cor e que nunca mais vi, as matas que ainda não conheciam a ganância do ser humano, os horizontes, o medo, a alegria, a descoberta e a camaradagem.


Os portugueses que por ali estiveram noutras épocas, alguns são acusados, de terem matado, estropiado e escravizado. Não foi grandioso ou louvável para nós, mas hoje ninguém os pode avaliar e seria insuportável e de desconfiar de tais intenções, porque julgar os outros e a história tendo a vantagem do tempo diante dos nossos olhos, é duvidoso.
 

publicado por Alto Chicapa às 12:53

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Quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

31- Ordem de movimento para o Alto Chicapa

(continuação de 30- Chuva e trovoada)


Estávamos no final do cacimbo (época seca que vai de Maio a Setembro), a nossa companhia preparava-se para uma rendição inesperada em Sacassange, que de acordo com a ordem de movimento do Batalhão de Caçadores 3870, partiríamos em viaturas civis com destino ao Alto Chicapa.


Utilizámos o itinerário: Luso, Luma-Cassai, Alto Chicapa.


Esta deslocação, foi, para mim, a viagem pelas matas de todos os medos. Seguimos, por picadas que não eram picadas, íamos encolhidos atrás dos tapais das viaturas civis como gado a caminho do matadouro, com muito calor, suor, mosquitos, pó, ansiedade, e muitos temores.

 


Percorremos terras e lugares inóspitos, onde nada havia, onde só a esperança, a solidariedade e a amizade não eram palavras vãs.


Fomos render a Companhia de Caçadores 2697 (?).


A sede do Batalhão também rodou do Lucusse para Henrique de Carvalho.
 

publicado por Alto Chicapa às 11:18

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Domingo, 14 de Setembro de 2008

30- Chuva e trovoada

(continuação de 29- Dois irmãos de mães diferentes)

 

As primeiras chuvas e as trovoadas dos últimos dias daquele mês de Agosto de 1972 eram um sinal da proximidade da época das chuvas.


Inicialmente, as chuvadas tropicais eram abundantes, mas muito breves, depois seguia-se um sol forte que nos aquecia e enxugava tudo rapidamente.


Mas um dia, aconteceu o que não conhecíamos, a chuva manteve-se durante mais tempo, muito persistente e forte. A área circundante e o destacamento ficaram cheios de lama escorregadia e barrenta. A trovoada e os relâmpagos eram tão fortes e intensos que pareciam estar a poucos metros. O chão tremia, como nunca o tinha sentido. Também tinha escurecido repentinamente e a barulheira continuava infernal. A carga de água foi tão intensa, que ajudou a acabar de encher os três bidões de 200 litros.


Só a meio da noite o tempo começou a mudar e a chuva a amainar.


Durante a noite, lia, ouvia música gravada, a Emissora Nacional e a BBC que chegavam com uma potência razoável em ondas curtas. Ouvia também, algumas rádios turras, uma delas a Maria Turra, que emitia a partir da Zâmbia. Falavam algumas vezes de nós, diziam coisas de espantar e exageravam muito. Por exemplo, uns dias antes da nossa mudança para o Alto Chicapa, já tínhamos sido vítimas de emboscadas, das quais não escapámos e em que as picadas ficaram mais vermelhas do nosso sangue.
 

publicado por Alto Chicapa às 11:21

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Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

29- Dois irmãos de mães diferentes

(continuação de 28- O povo e a vida difícil das mulheres)


Enquanto estive no destacamento do Canage tive oportunidade de conviver com dois irmãos de mães diferentes, um rapaz e uma rapariga ainda “cafeco”.

 

Cuidavam da minha roupa com esmero e muita limpeza. Ele falava regularmente o português, tinha imensa curiosidade, um grande desejo de aprender e ler. Aos poucos começámos a ter mútua confiança. Tratava-o por Dito.

 


Um dia levou-me pela aldeia, a ver o sítio onde lavavam e secavam a roupa, a visitar o adivinhador, que tinha um pouco de médico também, o local onde se faziam as cerimónias fúnebres, o local da circuncisão, os batuques, onde se dançavam os merengues e a zona da sanzala onde vivia a sua família.

 

 

Apresentou-me, os seus outros nove irmãos e irmãs (alguns ainda de colo), quatro fogosas e esbeltas mulheres, duas ainda de seios empinados, uma seria a sua mãe, teriam idades entre, talvez, os 15 e os 40 anos e no caminho de terra batida havia uma cubata diferente, e maior, onde na frente e à sombra de uma grande árvore, estava sentado um homem que aparentava muito mais idade. A todos falei. Era gente boa.

 


Durante o regresso, pensei;
- Não pode ser, este homem, que é certamente muito mais velho, não dá conta daquelas mulheres e para fazer os filhos deve ter um ajudante.


Olhei para o Dito e com algum receio perguntei:
- Dito como é que o teu pai dá conta de todas aquelas mulheres?
- "Oh alferes, não esfala isso, os filho és mesmo dele."


Quando deixei o destacamento fiz questão de me despedir especialmente daquela família, deixei uma recordação monetária e os meus livros ao Dito e ofereci uma caixa de cucas (cervejas) ao pai.

 

No entanto, não saí sem que ele me desse o segredo da sua capacidade sexual.
Respondeu-me, "Cá, nossalferes, tem esperto, tomo milongo (?), que vou buscar nos mata, para ter os pau direito e fazer os minino" (já não me lembro do nome, mas mostrou-me uma raiz amarelada parecida com um nabo grande).


Ainda pensei que seria o pau de Cabinda ou o pó de cantaridas, mas aquele “milongo” era certamente mais do que isso.


Saí desta zona, sem a angústia de querer ser herói, satisfeito comigo, honrado e com o luxo de ter gravado o meu olhar longa e eternamente. Houve momentos mágicos que ao recordarmos fazem parar o tempo e o mundo se fosse possível.


Muitos anos depois vi o filme África Adeus, e como eu acreditei na frase que Meryl Streep diz para Robert Redford: - Tudo o que disseres agora, eu acredito.
 

publicado por Alto Chicapa às 16:18

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Domingo, 7 de Setembro de 2008

28- O povo e a vida difícil das mulheres

(continuação de 27- Longínqua terra para onde fomos atirados)

 

Naqueles poucos meses, já tinha aprendido muito sobre o povo e a vida difícil das mulheres desta região de Angola.


A mulher era, acima de tudo, um instrumento de reprodução e de gozo sexual do homem, não tinha o direito de escolher o marido e provavelmente não havia o amor como nós o entendíamos.

 

A mulher valia na tribo pelos trabalhos que realizava e pelos filhos que procriava.

 

Ela começava o dia cedo, muitas vezes carregando os filhos às costas. As suas tarefas diárias incluíam, tratar dos animais, a preparação da comida e da terra, plantar mandioca, feijão, milho e batata-doce, pôr os tubérculos da mandioca a fermentar ou a secar, transportar a água, a lenha, frutos, raízes, assim como, ratos, gafanhotos e larvas. O cultivo da mandioca constituía a base alimentar desta gente, uma vez que a sua comida era à base de pirão, feita de farinha de mandioca por vezes misturada com milho ou tubérculo de mandioca seco ou fresco.


A farinha de mandioca, bem como o feijão e o milho provenientes das lavras eram vendidos em parte ao único comerciante na sanzala ou trocados por peixe seco, óleo de palma e panos.


Os homens tinham tantas mulheres quantas pudessem comprar, porque ter mulher ou melhor mulheres, significava ter comida e ser rico. Dedicavam-se à caça com arcos, flechas, dardos e armadilhas. A caça estava intimamente ligada às convicções religiosas ou tribais e também servia para fornecer carne para alimentação própria e para a comunidade. Adicionalmente, era seu dever construir a casa, procurar mel e destilar aguardente de milho.


Em conclusão, para as mulheres a infância acabava aos 10/12 anos quando eram pedidas em casamento. Começavam a preparar as refeições, a acarretar água e lenha, a trabalhar nas lavras e com actividade sexual, mesmo antes da iniciação. Por estes motivos, viam-se muitas mulheres com menos de 40 anos, numa avançada velhice prematura, completamente estragadas fisicamente e com aspecto de muito velhas. Causava pena ver as suas caras sofridas e os seios substituídos por peles mirradas e pendentes.
 

publicado por Alto Chicapa às 13:07

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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

27- Longínqua terra para onde fomos atirados

(continuação de 26- Uma G3 e cinco carregadores de 20 munições)

 

A nossa vida, nesta longínqua terra para onde fomos atirados, mantinha-se religiosamente com os mesmos rituais, protecção diária da construção da estrada, esporádicas patrulhas na mata, as estadias regulares no destacamento da sanzala do Canage ou a vida de prisioneiros no quartel e do arame farpado.


Apesar de tudo, o desterro que nos era imposto tinha alguns aspectos positivos. Nem tudo era mau, se soubéssemos partilhar as experiências e abrir os olhos para o que nos rodeava.


Efectivamente nem tudo foi mau para mim, recordo o período entre 13 de Maio e 1 de Julho onde tive um pequeno oásis na minha vida e também as forças redobradas.

 

 

Fiquei muito contente e honrado e senti-me um privilegiado durante 6 semanas com a companhia da minha mulher e do meu filho João.

 

 

Lembro com gratidão aqueles momentos e não esqueço a sua coragem.
 

publicado por Alto Chicapa às 14:34

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Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

26- Uma G3 e cinco carregadores de 20 munições

(continuação de 25- "Chindelo" só querer "maka")

 

Mesmo em tempo de guerrilha, onde tinha que salvar a minha pele e lembrar-me que era um militar, embora de uma guerra que não tinha comprado, sentia uma saudável, sincera e desinteressada colaboração em muitos momentos entre “nós” e “eles”, percebia que as pessoas eram puras e não tinham maldade e que a sua revolta devia-se não por causa dos militares mas pelos sucessivos anos de ausência de políticas económicas e sociais, do abandono da administração colonial (Salazar nunca foi a África), o amadorismo dos seus funcionários, dos maus tratos, do trabalho forçado e não pago e de muita “porrada”, como diziam.
 

Contavam, que só pegaram em armas, a exemplo do que tinha acontecido noutros países e porque os brancos portugueses lhes tinham imposto uma vida de escravos.


Estávamos já há algum tempo deslocados naquele destacamento. O armamento disponível era composto por uma espingarda individual G3, cinco carregadores com 20 munições cada, o dilagrama (dispositivo com munição especial, acoplado à G3 para lançar granadas de mão) e algumas granadas de mão defensivas.

 


A nossa segurança nocturna era sempre insuficiente e ridícula.


O armamento, que era para ser poupado e nem pensar em gastar as munições, tinha um fiel vigilante na nossa companhia, um sargento do quadro permanente do exército, que também costumava dizer, a tropa desenrasca-se com aquilo que tem.


Hoje, posso confidenciar, que contava e vivia muito com a nossa sorte, com o espírito de sacrifício, a resistência e a capacidade de sofrimento dos nossos soldados, com o enfraquecimento do MPLA na região, com a deslocação da simpatia das populações locais pelo outro movimento de libertação, a UNITA, o desentendimento entre os movimentos de libertação e o acordo bizarro entre colonizador e colonizado, feito entre a tropa da Região Militar Leste, pelos Generais Costa Gomes e Bettencourt Rodrigues, um grupo de madeireiros e o chefe do Galo Negro. Este acordo, transformado num pacto de não agressão, garantia cinicamente à UNITA o controlo do Leste de Angola.


Também sabia que o ano de 1972 estava a ser devastador para a FNLA (Frente Nacional para Libertação de Angola) e o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola).

 

Viviam com gravíssimos desentendimentos internos. A FNLA teve que enfrentar uma grave amotinação dos elementos na base de Kinkuso, obrigando as tropas do Zaire a intervir, e o MPLA foi confrontado com uma revolta encabeçada por Daniel Chipenda (ex-jogador da Académica de Coimbra), em oposição a Agostinho Neto.


Estes factos, acumulavam-se desde o início de 1972 e foram em grande parte uma consequência da ofensiva portuguesa.

 


No decorrer do ano de 1972, a fraqueza destes movimentos no Leste era evidente. O número de acções que efectuaram sobre as tropas portuguesas e nas populações e o número de baixas que provocaram nas NT (nossas tropas) foi escasso e insignificante a partir do mês de Setembro.


A FNLA entrou em crise total e retirou o seu batalhão para o Zaire, enquanto o MPLA, após o colapso dos seus esquadrões, recolheu às suas bases na Zâmbia.


Mais tarde, perante a desorganização dos dois movimentos que se desfaziam, a OUA e Mobutu juntou-os, com a assinatura do acordo de Kinshasa em 13 de Dezembro de 1972.


Quando fui informado deste acordo, pensei o pior para nós e calculei que iria surgir no terreno uma força poderosa com um objectivo comum, porque a solução encontrada com a criação do CSLA (Conselho Superior de Libertação de Angola) do CMU (Comando Militar Unificado) e do CPA (Conselho Político Angolano) era correcta.


O acordo felizmente não teve consequências, devido às fortes contradições e às inúmeras divergências nos movimentos de libertação e dos seus líderes.
 

publicado por Alto Chicapa às 15:09

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