Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

13- Saída à cidade de Luanda

(continuação de 12- O Grafanil)


Na minha primeira saída à cidade de Luanda fui em primeiro lugar visitar um amigo do meu pai, o Sr. Manuel Augusto Frade que vivia no Bairro de Alvalade e trabalhava numa empresa de telecomunicações, a Companhia Portuguesa Rádio Marconi.


No centro da cidade, passei na Praça de Luanda mais conhecida por Mutamba e identifiquei-me com os machimbombos, os autocarros de Luanda. Havia uns já muito velhos, mas outros eram novos, modernos, e pareciam até confortáveis.

 

 

 

Depois, fui passear muito perto da baía de Luanda. Sentei-me numa esplanada (não me recordo do nome Império ou talvez Versalhes ?) já com outros militares por companhia onde bebemos umas Cucas (cervejas) acompanhadas com pratinhos de camarões que eram o equivalente aos tremoços em Portugal.

 


Havia sempre muita gente nesta zona central da cidade.


Muitos homens usavam camisa transparente, as mulheres pareciam muito bem vestidas para uma simples ocasião de andar na rua, outras estavam exageradamente pouco vestidas e havia ainda as belas miúdas, as que chamavam de cabritas, de cor “canela”, lindas, vestidas de mini-saia com tecidos garridos e justos a realçar as formas esculturais dos belos corpos já bronzeados, o ventre liso, os seios de bicos excitados, o traseiro era marcado por calcinhas minúsculas e tudo o resto nem era preciso adivinhar.


A população branca local com uma vida muito própria e aparentemente muito endinheirada, rodeada de criados dava-se a um novo-riquismo flagrante, que o demonstrava por tudo e por nada, mas quase sempre de uma forma ignorante. Diziam com desprezo, que os militares nada tinham a ver com eles, éramos do puto (nome dado a Portugal) e tínhamos vindo para estar no mato.


Para quem acabava de sair de Portugal e não voluntariamente, sentia alguma mágoa quando se era olhado com indiferença e nalguns casos com hostilidade.

 

É certo que já tinham decorrido vários anos sobre a cruel vingança dos anos 60, que a guerra estava longe e que sentiam menos a necessidade de protecção.
 

As revistas angolanas estavam cheias de fotografias de bailes, festas sociais, eleições de misses e muitos automóveis do tipo americano.
 

Por outro lado, havia muita pobreza e até miséria exposta. Uns vadiavam ou pediam esmola, outros vendiam lotaria, jornais e objectos esculpidos em madeira e outros, senhores de camisa e casaco muito sebento trocavam escudos por angolares com mais 30%.

 


Fomos jantar a um belo restaurante na ilha de Luanda do qual também já não me recordo do nome (talvez Horizonte?). Ficava num promontório com praia de um lado e do outro.

 

 

Comi, por 50 angolares com gorjeta incluída, lagosta grelhada com ervilhas e mais qualquer coisa, bebi vinho verde e no final um whisky.


A temperatura mantinha-se elevada.


Acabámos a noite entre as águas calmas e deslumbrantes da baía de Luanda com majestosos edifícios iluminados, encimados por reclames multicolores, o edifício do Banco de Angola, os andares do Banco Comercial de Angola, os grandes edifícios dos hotéis, o edifício de apartamentos o “treme treme” (local muito frequentado pelos militares em férias ou regressados do mato), o porto de Luanda repleto de navios, e uma boîte onde havia espectáculo de variedades e de striptease de categoria duvidosa.


Beberam-se mais uns whisky e a noite passou-se depressa e de maneira agradável.
 

publicado por Alto Chicapa às 15:37

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Domingo, 22 de Junho de 2008

12- O Grafanil

(continuação de 11- O desembarque)


O campo militar do Grafanil era parecido com o de Santa Margarida em Portugal, bastante maior, mas três vezes pior em desconforto e higiene.

 

Os dormitórios eram parecidos com os de Mafra, em dimensão, tinham os mesmos beliches e os armários pintados de verde. As sanitas, conhecidas por cagadeiras, eram apenas um simples buraco no chão.
 

O calor era constante, peganhento, gorduroso e intenso. As amplitudes térmicas eram mínimas.

 

O céu não era bem azul, era espesso e triste. A água saía morna das torneiras.
 

Depois de um banho de "água fria" que me deixou com mais calor, troquei o meu fardamento de inverno com camisola de felpa e ceroulas, por um outro mais leve e já adequado ao novo ambiente.


Os muitos mosquitos que quase me comiam na primeira noite, juntaram-se, nos dias seguintes, a dezenas de percevejos vindos não sei de onde.
 

publicado por Alto Chicapa às 10:50

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Terça-feira, 17 de Junho de 2008

11- O desembarque

(continuação de 10- Estávamos muito perto de Angola)

 

Quando o avião parou e se abriu uma das portas sentiu-se uma onda de calor de tal modo brusca que parecia que uma fornalha se tinha aberto de repente.


O desembarque foi normal, mas na zona civil da aerogare deu-se o impensável, fomos presenteados com bandos de miúdos que pareciam todos iguais, pedinchavam e queriam transportar as malas e os sacos.

 


No exterior, havia uma fila de camiões preparados para nos levarem ao campo militar do Grafanil situado nos arredores, a norte de Luanda.


Durante o percurso, que durou pouco mais de meia hora, fiquei, com uma visão muito confusa dos locais. Tudo parecia ser muito diferente de Portugal.

 


As pessoas, no meu modo de ver, pareciam rigorosamente iguais, a vegetação era escassa e as árvores tinham copas enormes, o chão era poeirento e vermelho, o trânsito automóvel incrivelmente desordenado e havia muita pobreza.


A cor do angolano, em Luanda, era bem diferente daquela que eu estava à espera. Apresentava uma tonalidade acastanhada não muito carregada e com algum brilho.


Era um ambiente novo, diferente, exótico e muito estranho, mas ao mesmo tempo parecia fantástico.
 

publicado por Alto Chicapa às 15:22

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Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

10- Estávamos muito perto de Angola

(continuação de 9- Lisboa a perder-se de vista)

 

Por volta das sete horas, do dia 5 de Fevereiro de 1972, foi servido um pequeno-almoço, à base de fiambre, pão, manteiga, croissant, café com leite, compota, geleia e mais qualquer coisa com ovo.


Às 8 horas, estávamos muito perto de Angola, já se via o mar muito bem e a altitude era reduzida.


Pouco tempo depois começámos a sobrevoar a orla marítima formada por retalhos onde o verde da vegetação contrastava com uma terra avermelhada.

 

 

 

Seguiram-se os arredores de Luanda com uma extensa zona de bairros pobres e mais adiante a cidade onde já aparecem alguns edifícios modernos implantados em zonas de construções improvisadas igualmente de aspecto muito pobre.

 


Vista do ar, a cidade de Luanda é deplorável e de grandes contrastes. É desordenada e as ruas sem passeios não têm qualquer plano de urbanização.

 

 

publicado por Alto Chicapa às 11:27

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Sexta-feira, 6 de Junho de 2008

9- Lisboa a perder-se de vista

( continuação de 8- Dos momentos passados aos momentos do embarque)

 

Já no ar e com o espectáculo de uma Lisboa iluminada a perder-se na distância, passou-se para uns ligeiros reflexos, que só poderiam ser o mar, e rapidamente para uma massa cinzenta escura de nuvens.


Segundo informação da cabine de pilotos, o avião continuaria a ganhar altitude até atingir os doze mil metros.


Por volta das 3 horas (05-02-1972) somos avisados pelo comandante, que iria haver alguma turbulência durante a passagem por uma zona de tempestade. De facto, algum tempo depois, o avião começava a ser sacudido com grandes deslocações para baixo e para cima e as extremidades das asas a vibrarem.

 

Lá fora, via-se perfeitamente como se fosse dia e as nuvens eram rasgadas frequentemente por enormes clarões. Um espectáculo espantoso.


Poucos deram pela tempestade.

 

Eu, que aos poucos me ia enrolando numa manta, acabei também por adormecer.
 

publicado por Alto Chicapa às 15:37

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Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

8- Dos momentos passados aos momentos do embarque

(continuação de 7- Momentos passados no Campo Militar de Santa Margarida)

 

Um “serrar de dentes” espontâneo atirou-me para a realidade e acabou com os meus pensamentos passados. Concluia que os maus momentos podem estar em qualquer lugar e que nos esperam quando menos contamos, por mais civilizados que sejam os sítios ou as pessoas.
 

Bem, o embarque tinha acontecido por volta das 23 horas do dia 04 de Fevereiro de 1972 e, a ida para o avião proporcionou alguns momentos de espanto e de alguma descontracção.
 

À chegada ao aeroporto em Lisboa, fomos levados para uma zona reservada à força aérea, Figo Maduro. Só alguns o sabiam. Era uma aerogare bem diferente da parte civil. Depois, foi o percurso a pé entre a aerogare e o local onde se encontrava estacionado o avião. Lembro-me de ser uma noite muito escura, onde se via tudo muito iluminado e nítido à nossa volta. Mesmo assim, foi agradável, observar a paisagem nocturna e as expressões dos rostos de cada um de nós.
 

Muito poucos tinham visto um avião de tão perto e com a envergadura de um Boeing 707.

 


O nosso avião era todo branco com uma risca azul ao meio e uma cruz latina vermelha no bojo, junto às janelas, entre as asas e a porta de acesso. Tinha um aspecto imponente.
 

Organizados, subimos as escadas e entrámos deslumbrados.
 

Enfim, convém referir que as esbeltas hospedeiras de bordo, com que todos contávamos, eram cabos (machos) da força aérea a desempenharem o mesmo papel.
 

publicado por Alto Chicapa às 16:06

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