Terça-feira, 27 de Maio de 2008

7- Momentos passados no Campo Militar de Santa Margarida

(continuação de 6- Momentos passados no Quartel de Chaves)

 

Tirando raras excepções, quase toda a companhia ia em profundo sono com longos roncos.

 

Era-me impossível dormir num avião com tamanha orquestra militar de militares a caminho da guerra colonial em Angola.
 

Com o lento avançar das horas neste dia 5 de Fevereiro de 1972 os pensamentos vinham em catadupa. Sem parar, revia algumas imagens e recordações de momentos passados no Campo Militar de Santa Margarida.


Uma infecção alimentar abalou pela primeira vez a minha estabilidade e deixou-me muito pensativo devido aos antecedentes familiares.

 

O segundo comandante do batalhão 3870/ BC10 ajudou à festa e fez questão de não acreditar que eu estivesse adoentado com uma virose intestinal. Criticou-me publicamente e nunca aceitou a situação. Tomou conhecimento da minha passagem pela enfermaria no campo militar e de estar a perder peso. Mesmo assim, disse-lhe, em tom familiar, que a diarreia era tanta que até parecia que urinava pelo ânus. Respondeu-me, não seja parvo, ninguém urina pelo ânus.

 

Nem em Mafra tive tanta intolerância. Felizmente, para mim e para aquele senhor, cego de sentimentos e ávido de comando e de carreira, tudo iria acabar bem. Concretizei o início da cura durante o fim-de-semana, em minha casa e com o apoio de um médico de família.

 

Durante a minha comissão militar em Angola, nunca lhe fui hostil, mas por ter ficado com má impressão sobre a pessoa, nunca o tolerei e fiquei sempre com a ideia de que era um homem em que não se podia confiar.

 

Apesar de hoje encarar estas situações com um sorriso divertido e de até achar que a minha passagem pela tropa foi uma escola de vida, nunca consegui mudar a minha opinião sobre o carácter deste militar.
 

Os últimos três meses passados no Campo Militar de Santa Margarida foram tão diferentes e muito menos agradáveis que o longo período que estive em Mafra, Chaves, Porto e Tancos (Janeiro a Outubro de 1971). 
 

publicado por Alto Chicapa às 11:42

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Terça-feira, 20 de Maio de 2008

6- Momentos passados no quartel de Chaves

(continuação de 5- momentos passados no Centro e Escola de Instrução Militar de Mafra)

 

Tirando raras excepções, quase toda a companhia ia em profundo sono com longos roncos.

 

Era-me impossível dormir num avião com tamanha orquestra militar de militares a caminho da guerra colonial em Angola.
 

Com o lento avançar das horas neste dia 5 de Fevereiro de 1972 os pensamentos vinham em catadupa. Sem parar, revia algumas imagens e recordações de momentos passados.
 

Momentos em Chaves
 

Próximo do período das férias escolares de Verão e com um quartel bem junto à cidade solicitei autorização ao comando para alugar um quarto e pernoitar fora, na companhia da minha mulher. Veio a autorização.

 

Pensei, finalmente vou ter um pouco de vida própria. Aluguei um quarto a meia centena de metros do quartel, por 900 escudos / mês.

 

Estava cheio de projectos. Quando tudo parecia bem encaminhado e resolvido, recebo uma guia de marcha para ir tirar um curso intensivo de justiça militar no Porto, durante 3 semanas.
 

Regressado do Porto e com os conhecimentos jurídicos adquiridos fui colocado, por ordem de serviço, no gabinete justiça militar do quartel de Chaves. Fiquei muito contente pela colocação e satisfeito porque a vida da cidade (naquele tempo vila) de Chaves era muito agradável.

 

 As ideias eram muitas, mas agora o que interessava era a estabilidade que tinha voltado. Ao fim de três semanas, entre processos, autos, deslocações para inquéritos de amparo a famílias e aulas regimentais nocturnas para adultos, recebo outra guia de marcha. Tinha sido deslocado para Tancos para tirar a especialidade de engenharia de explosivos, minas e armadilhas.

 

Eram mais 4 semanas noutra realidade, mas aqui nem tudo correu mal e tive uma boa surpresa. Sem ter exigido nada, nem ter feito qualquer diligência, foi-me disponibilizada uma enorme vivenda mobilada que aproveitei, com a devida autorização, para usufruir com a minha mulher.

 

Tancos, era apenas um enorme deserto militar, muito diferente da cidade de Chaves. Na região não havia vida social. Para além das belas paisagens ao longo do rio Tejo e da ilha do Castelo do Almourol, havia muito sossego, um rudimentar café feito de velhas tábuas das obras e muitos militares.

 

 


 

publicado por Alto Chicapa às 15:55

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Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

5- Momentos passados no Centro e Escola de Instrução Militar em Mafra

( continuação de 4- Momentos na minha felicidade despreocupada)

 

Tirando raras excepções, quase toda a companhia ia em profundo sono com longos roncos.

 

Era-me impossível dormir num avião com tamanha orquestra militar de militares a caminho da guerra colonial em Angola.
 

Com o lento avançar das horas neste dia 5 de Fevereiro de 1972 os pensamentos vinham em catadupa. Sem parar, revia algumas imagens e recordações de momentos passados.
 

Momentos passados no Centro e Escola de Instrução Militar em Mafra.

 

Quando um major, inchado e cheio de autoridade, me chama de uma ponta da parada. - Nosso instruendo, nosso instruendo, rápido, passo de corrida. - Sim meu major (um sim sempre acompanhado de todo o ritual militar). - Retire este obstáculo do meu caminho, quero passar (eu era um parvo e muito ingénuo, acabadinho de ser retirado da faculdade de um curso de medicina inacabado, estava incrédulo com a situação e com aquele enorme cretino, para mim a parada estava mais que limpa e aquilo era apenas uma pequena ponta de um cigarro com filtro). - Mesmo sem ser fumador e obviamente sem refilar lá tive que apanhar a “beata” e andar com ela no bolso até à formatura do recolher, onde, depois de uma grande retórica e com todos em sentido, fui obrigado a ir deita-la no caixote do lixo e fazer o papel de culpado. No dia seguinte estava de serviço às casas de banho.

 

As patrulhas nocturnas, que eram sempre influenciadas pelo factor surpresa e pela data / hora menos apetecível, realizavam-se nas noites mais escuras e agrestes. Exigiam sempre muito silêncio, caminhava-se durante 4 horas e percorriam-se as estradas nacionais e municipais, os caminhos florestais e até alguns cursos de água nos arredores de Mafra. Normalmente, um grupo de cinco indivíduos tinha que transportar uma barra de ferro com cerca de 20 kg. Mas, o impensável aconteceu. Andava tão cansado numa destas patrulhas que adormeci em pleno andamento. Acabei por cair numa valeta da estrada e acordar à força. O importante disto é que a unidade do grupo funcionou tão bem que mais ninguém se apercebeu.


Também recordo os loucos regressos do fim-de-semana, de Lisboa para a Escola de Instrução Militar em Mafra numa carrinha Renault 4L de um grande companheiro, camarada na altura, o Nuno Saldanha, e que acabaria por vir a ser o futuro alferes sapador do meu batalhão (BT3870) em Angola. Com a nossa juventude e irreverência tudo era feito nos limites.


Já na condição de aspirante a oficial miliciano, foi-me oferecida a possibilidade de escolher quartéis perto de Lisboa para poder continuar a estudar. Fiquei todo contente e agradecido, e ainda me facilitaram uma semana de licença em casa (era uma maravilha e uma malta “porreira”). Mas, o contentamento durou pouco. Logo na segunda-feira seguinte recebo uma carta com uma guia de marcha para me apresentar no quartel em Chaves. Trás-os-Montes esperava-me a cerca de 12 horas de viagem.


 

 

publicado por Alto Chicapa às 13:19

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Sábado, 10 de Maio de 2008

4- Momentos na minha felicidade despreocupada

(continuação de 3- Em pleno voo)

 

Tirando raras excepções, quase toda a companhia ia em profundo sono com longos roncos.
 
Era-me impossível dormir num avião com tamanha orquestra militar de militares a caminho da guerra colonial em Angola.
 
Com o lento avançar das horas, neste dia 5 de Fevereiro de 1972, os pensamentos vinham em catadupa. Sem parar, revia algumas imagens e recordações de momentos passados.
 
Momentos na minha felicidade despreocupada.

 

Na infância quando brincava, jogava à bola e andava em carrinhos de rodas pelas ruas da Madragoa sem ter que me preocupar com ladrões ou outro tipo de gente. Os arranhões nas pernas, a cabeça partida, o gozo de bater às portas, de andar pendurado nos eléctricos, de chamar cabeça de giz aos polícias sinaleiros e as palmadas que levei do meu pai, fizeram parte do meu crescimento e da minha personalidade.

 

Na juventude, andava à boleia sem medo de raptos ou violações, saía com os amigos e também convivia por carta. Comia gelados sem marca vendidos em carrinhos nas ruas de Lisboa, bebia laranjadas e até pirolitos pela mesma garrafa de um qualquer amigo e trocava de pastilha elástica num ocasional beijo sem pensar em doenças.

 

Na adolescência, sem ideias de ocasião ou más intenções era pressionado e desencaminhado por uma colega de curso para ir nas férias, aos Açores, à sua terra natal ver pela primeira vez ananases pendurados nas árvores.

 

Quando decidi que era adulto e analisei quem era o grande amor da minha vida, e numa época em que os preservativos eram proibidos e só arranjados às escondidas, antecipei as noites do meu futuro casamento sem nenhuma ideia de oportunismo, fanfarronice ou intenção.

publicado por Alto Chicapa às 14:07

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Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

3- Em pleno voo

(continuação de 2- O destino era o continente africano)

 

Passava da meia-noite. Era dia 5 de Fevereiro de 1972, e já há algum tempo que estávamos, prisioneiros do nosso avião, em pleno voo a caminho de Luanda.

Enquanto uns jogavam às cartas e conversavam, outros dormiam. O barulho dos motores do avião misturava-se com o intenso ressonar de alguns.

Com muitas horas de voo pela frente, com o meu sono ainda ausente e com a amargura que pairava no ar, comecei a sentir uma leve sensação de abandonado, talvez motivada pelo afastamento da família, dos amigos e dos locais habituais, algo parecida com aquele estado de espírito cantado pelos nossos poetas, após longos anos de ausência da terra natal.

Seriam já as saudades?

Assim, durante algum tempo comecei mentalmente em “oração”, eu alferes miliciano número 100347 de 1968 desde já prometo, ter-me-ão frequentemente junto de vós, família e amigos, através dos meus pensamentos e das minhas palavras escritas, eu alferes miliciano número 100347 de 1968 desde já prometo, a partir de agora e sempre que tiver momentos livres, darei conta de tudo quanto vir, pensar e sentir no "desterro" forçado por terras de Angola, eu alferes miliciano número 100347 de 1968 desde já prometo, aproveitar o melhor possível a minha passagem por terras africanas, descobrindo e conhecendo novos lugares, novas gentes e trocar amizades e conhecimentos, eu alferes miliciano número 100347 de 1968 desde já prometo, regressar de Angola e de vez a Portugal daqui por dois anos (foram 2 anos e 4 meses) com relatos de todos os momentos, peripécias, imagens e descobertas.

publicado por Alto Chicapa às 11:51

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Domingo, 4 de Maio de 2008

2- O destino era o continente africano

(continuação de, 1- A escolha era impossível)

 

Em 04 de Fevereiro de 1972, o destino era o continente africano. Tínhamos sido nomeados para servir na RMA (Região Militar de Angola), na ZIL (Zona de Intervenção Leste).

O transporte foi efectuado num dos dois aviões Boeing 707 das novas linhas aéreas militares, os TAM.

O grande continente africano, que nos esperava e que os portugueses foram descobrindo ao longo de muitos séculos, estava politicamente proibido de ser sobrevoado pelos aviões de Portugal.

A viagem foi feita durante a noite a cerca de 12000 metros de altitude alternando o oceano atlântico e o continente africano.

A duração prevista para uma viagem de Lisboa a Luanda, era de cerca de 10 horas a uma velocidade de cruzeiro de 950 km/hora.

De acordo com as previsões fornecidas no antigo quartel do Campo Grande em Lisboa, hoje uma universidade privada, deveríamos chegar a Luanda por volta das 8,30 da manhã. A hora real de partida, assim como outras informações importantes, embora simples, estiveram sempre camufladas entre desculpas e dificuldades de logística (momentos antes da partida ainda havia dúvidas no destino real em Angola, se a zona de Zala no Norte ou a ZIL).

Para muitos era o baptismo de voo.

Pela minha parte, refiro que não sou fã e que, quando ando de avião parece-me tudo tão relativo. Não é medo, é algum receio.

Corria no jornal da caserna que tínhamos sido “drogados” ao jantar com cânfora misturada na bebida.

Os efeitos, segundo os relatos de alguns, seriam para perder a energia (em gíria militar davam-lhe outro nome) e também para não se pensar muito.

É certo que só me lembro de haver um sotaque tripeiro à minha volta no interior do avião, e ainda hoje estou para saber quem foi o meu companheiro de viagem e o motivo porque desembarquei numa Luanda super quente ainda vestido com camisola interior de felpa e ceroulas.

publicado por Alto Chicapa às 10:37

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