Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

1- A escolha era impossível

A escolha era impossível para a maioria dos mancebos. Geralmente, tudo terminava, quase sempre, assim: por ter sido nomeado para servir no Ultramar, na Região Militar de Angola, ou de Moçambique, ou da Guiné, etc.

E por ter sido um dos nomeados, vou documentar e tentar recordar as vivências e os episódios acontecidos, entre medos, angústias e alegrias.

Irei tão próximo da realidade quanto me for possível. Em todo o documento irei tratar as pessoas pelos seus verdadeiros nomes, excepto nos casos mais sensíveis.

Com algumas recordações da minha infância pelo meio, a acção é passada entre os dias 12 de Janeiro de 1971 e 05 de Junho de 1974, antes e depois da partida para o continente africano.

Vou retratar alguns momentos do meu quotidiano, enquanto militar miliciano, combatente, ex-universitário e ex-menino da mamã.

Este foi um dos períodos mais complicados e difíceis da minha família, numa fase que, só mais tarde, considerei como muito importante na minha formação como homem e na consolidação das minhas convicções.

Como não sou um dotado nas letras, este documento não é mais do que o próprio nome indica. Escrevo-o tal como presenciei os factos, sem paixões, emoções ou preocupações literárias. Este, também é o meu primeiro blog. Não se pense, também, que vou aproveitar este testemunho para fazer, um hino ou louvor ao colonialismo de Portugal ou de outros países, relatos de operações militares heróicas ou apologia política.

Os meus erros, devo assumi-los historicamente como uma menos valia da minha vida.

Também quero manifestar o meu respeito por aqueles que se bateram pela sua própria causa, de armas na mão. Foram os “inimigos” de então, mas não lhes guardo rancor. Com excepção dos mercenários cubanos, sul-africanos, russos e outros, todos falávamos uma linguagem comum, o português, arriscámos as nossas vidas e conhecemos os aspectos mais miseráveis da guerra e das armas.

Angola é uma terra que marcou quem teve o privilégio de passar por lá e, ainda mais a quem lá tenha nascido. O tempo, a distância e o avançar da idade vai deixando as suas marcas e esbatendo a memória das nossas vivências.

Defendo com toda a minha energia os militares milicianos, de soldados a oficiais, muitos saídos dos seus ofícios ou das faculdades de Lisboa, Porto e Coimbra e que por lá se bateram com respeito pelas populações, e contribuíram para o desenvolvimento cultural, social e humanitário de Angola. Atrevo-me a afirmar que muita coisa positiva que lá foi feita, foi obra de militares.

Fui militar e guerrilheiro pelas circunstâncias, estudante de medicina por opção, informático por profissão, economista por vocação e humanista por carácter e formação.

Do meu passado ficam estas memórias, hoje sou um homem tranquilo que vivo a vida até ao limite, onde continuo a sonhar e a confiar no futuro.

À distância de mais de 30 anos, sem a violência da colonização e a violência da descolonização, sinto que Angola está hoje finalmente em paz e a caminho de se tornar uma grande potência com influência decisiva no futuro do continente africano.

Gostava de lá voltar na condição de turista.

publicado por Alto Chicapa às 13:55

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