Domingo, 14 de Dezembro de 2008

61- Deslocação a Henrique de Carvalho

(continuação de 60- O tchimbanda)

 

A única vez que fui em “passeio” a Henrique de Carvalho, jurei para nunca mais.


Foi um trajecto longo e desconfortável, nada compensado pelas poucas horas passadas na civilização, de uma pequena cidade.
O dia de ócio foi passado na companhia de alguns dos meus camaradas e dos Alferes Duro e Saldanha, que estavam colocados na sede do batalhão.


Sem a agradável companhia dos meus camaradas, o dia teria sido uma seca, como se diz agora.

 

 

Estivemos no edifício do governador, na igreja, nos jardins, numa ou noutra rua ladeada por uma fiada de casas e estabelecimentos comerciais e acabámos por seguir a avenida principal em direcção à cervejaria junto ao cinema.


Depois de um excelente bife, bem temperado com gindungo, acompanhado com muitas batatas fritas e umas garrafas de vinho verde, fomos tomar a bica a um café onde duas irmãs, filhas do patrão, eram as rainhas da casa, faziam as delícias dos clientes vindos do mato, e … como elas sabiam as nossas carências, e … como se tornavam cúmplices do acréscimo de tesão que nos percorria o corpo.
Ainda exclamei: -É pessoal … neste restaurante a sandes de chouriço vira paio.


À noite, fui ao cinema.

Como cheguei uns minutos antes do início da sessão, um pouco antes de se apagarem as luzes passei um olhar por uma sala quase repleta de militares.
Ao início, as cadeiras pareciam cómodas, mas ao fim de algum tempo tornavam-se bastante duras. A sessão, que começou com um noticiário / documentário sobre o império e o mundo, continuou até ao intervalo com vários desenhos animados no meio de gargalhadas e muitas bocas.
Depois do primeiro intervalo, começou o filme, Um Dólar Furado, uma história de cowboys, que agradou a todos e foi certamente o tema das conversas nos dias seguintes. Terminada a sessão, houve uma salva de palmas.


Pela noite dentro, ainda bebemos umas cervejas acompanhadas com uns petiscos de ocasião e umas 1920 em balão aquecido.


No meio dos muitos vapores de Baco, falou-se um pouco de tudo, especialmente de grandes pernas e muitas mulheres, mas no meio de tudo isto, alguém tentava mudar o rumo dos acontecimentos e do assunto. Dizia teimosamente, umas piadas, insistia que tinha ouvido, à saída do cinema, duas das muitas pulgas existentes na sala a decidirem se iam a pé ou num tropa, e… que não devíamos esquecer que hoje era dia d’ânus, a Teresinha, a arrumadora, estava com o período …, ih! ih! … e … e, aquele gajo do peido … - Saíste antes de tempo! - Já não vês o filme ….


Abandonei o grupo já de madrugada para aproveitar ainda umas poucas horas de sono, antes de regressar ao Alto Chicapa.
Esperavam-me muitas horas de asfalto (125 kms) e picada (145kms).


A nossa coluna era composta por duas viaturas, um Unimogue a gasolina, onde ia o condutor, o nosso capitão, o correio e alguns géneros alimentares, e uma Berliet com um condutor, eu, dois furriéis, três soldados, muitos sacos de cimento e alguns ovos.


No regresso, o trajecto parecia ser mais fácil de percorrer e até o condutor estava mais confiante e com o pé mais pesado. O desejo de chegar cedo e de dia, fazia-nos esquecer a prudência. Parámos no Cacolo, na Tasca do Mais-Velho, para comer um arroz à malandro com muita cerveja gelada. Quando terminámos o petisco, reparei que o nosso capitão já não estava entre nós. Perante a minha admiração, todos confirmaram que era mesmo assim, nesta altura do percurso, com ou sem petisco, não esperava e continuava para o quartel.


Quando já estávamos muito para lá do meio do trajecto, um pouco antes da descida para a sanzala do Cambatchilonda, numa zona de picada plana e recta, onde íamos a uma razoável velocidade, de repente, entrámos num troço em que a terra e a areia se tinham transformado imprevistamente num pequeno manto de lama, o condutor ao reduzir a velocidade, a viatura guinou para um dos lados e saiu da picada. Quando carregou no travão, com alguma força, para nos impedir de irmos bater ou cair numa ribanceira, uma das rodas ficou ou estava bloqueada.

 


É verdade que a perícia do condutor e a sorte nos protegeram totalmente, a nós e aos ovos, de eventuais ferimentos, mas não nos livrámos de uma longa reparação pela noite dentro.

Os mecânicos António Ferreiro e António Morgado eram obrigados a fazer milagres.

(a seguir - Os meus olhos já iam vendo esta terra de uma forma diferente)

 

publicado por Alto Chicapa às 12:44

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