Domingo, 28 de Dezembro de 2008

66- Conclusões

(continuação de 65- Epilogo / Fim da comissão)

 

Este documento, um sonho que há muito tempo desejava realizar, narra as vivências de um Alferes Miliciano numa guerra estúpida e evitável.


Esta guerra de África, também chamada do Ultramar ou Colonial, afectou muitas famílias, pelas mortes e pelos traumatismos ocorridos na simples passagem pela frente de combate.


Como a Pátria parece esquecer-nos, e a discussão destes temas não representam mais-valias para o mundo consumista em que vivemos, valem-nos a internet, os blogues, as narrativas e alguns livros para que as memórias de uma geração não se percam para sempre.


Para os leitores que não conheciam a acção, tentei enquadra-los no tempo e nos lugares, reinventando um testemunho vivido entre 1971 e 1974, com personagens reais, que se movimentam, entre Portugal, Luanda, Alto Chicapa e a selva africana.


Os temas não são dominados pelo sexo, normalmente com a popular figura da lavadeira que facilmente misturava o trabalho com o prazer livre e alegre, nem pelo sangue, dos feitos heróicos ou traiçoeiros, mas sim pelas vivências de pessoas comuns, com diferentes tonalidades de pele mas com as mesmas necessidades.


Finalmente, sinto que fui apanhado por um conflito onde encontrei muitos irmãos, independentemente da cor da pele, com mais coisas a unir-nos do que a separar-nos.


Não obstante terem passado tantos anos, ainda recordo alguns dos aspectos negativos que me marcaram mais:
• A população branca de Luanda a olhar-nos com indiferença e até com hostilidade;
• As mortes e os acidentes;
• A juventude, prisioneira de um rudimentar quartel ou destacamento; e
• Os sacrifícios, por vezes desumanos, perdidos, para nada.


Também houve aspectos positivos, entre muitos:
• Saber que é verdade, o que dizem, “quem vai a África nunca mais a esquece”;
• Ter conhecido a simplicidade, a beleza e a pureza do povo quioco; e
• Saber, que a nossa tropa não foi só pela guerra.


Uma guerra raramente traz coisas boas … para mim, esta, foi, por acaso, uma escola de maturidade.
Os que lá estiveram comigo, também souberam, o que é a precariedade da vida e a amizade desinteressada.

É uma enorme alegria quando os caminhos das nossas vidas nos proporcionam os reencontros. 
 

(oportunamente, em novo blog - Estórias de vida, com o Sá Moço)

publicado por Alto Chicapa às 12:15

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Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

65- Epilogo / Fim da comissão

(continuação de 64- Epilogo / Destacamento)

 

Quando se entrou num período próximo do fim da comissão o pessoal ficou mais animado e começou a acreditar que íamos chegar inteiros ao “Puto”.


Todos queriam uma última recordação para levarem, uns panos estampados (os quitenges), imagens esculpidas em madeira, cantaridas (úteis na velhice), colares de malaquite, roupas, aparelhagens sonoras, garrafas de whisky e tabaco.


Seguiu-se, o grande frenesim, e para o Silva, o nosso carpinteiro, de fazer os caixotes com madeiras nobres para levarmos todas as recordações, que seguiriam mais tarde de barco.


Mas o final, não ia ser fácil. Com os sucessivos atrasos na nossa rendição, com os acontecimentos políticos que já se adivinhavam desde meados de Março (1974), conforme mensagens chegadas ao seio do núcleo de oficiais milicianos oriundos da Universidade de Lisboa, e a mudança de regime no governo português, após o 25 de Abril, o nosso regresso atrasou-se e obrigou muitos a repensarem o futuro das suas vidas.
No meio de muita desinformação, lembro-me vagamente que o desconhecimento da situação era total e a confusão reinou durante semanas.

 

No mês de Maio, fomos finalmente rendidos.


Enquanto eu e o furriel Coimbra fomos os eleitos a percorrer uns adicionais 1000 quilómetros, até Sá da Bandeira, em velhas camionetas de carga para entregar os soldados do contingente de Angola, outros tiveram o direito a um merecido descanso em Luanda, a tal cidade que ainda fervia de vida, com as suas belas praias, os bons restaurantes da ilha, os cinemas ao ar livre (recordo o Miramar), muitas mulheres na moda e um ambiente tão frenético onde todos se alheavam completamente do que se estava a passar e do que estava para vir.
Aquela gente, parecia não acreditar, que a umas centenas de quilómetros havia ainda uma luta armada, que tinha acontecido em Portugal uma forte mudança política e que se adivinhava o rápido aparecimento dos primeiros focos de uma guerra civil.


Quando toda a Companhia já estava em Luanda, no dia 05 de Junho meteram-nos num avião, fretado à TAP, e regressámos a Lisboa.
O capitão e outros camaradas ainda ficaram mais uns dias a tratar da liquidatária da Companhia e do fecho das contas a entregar nos Serviços de Contabilidade e Administração.
Durante a viagem, meditei sobre a minha estadia em Angola, o tempo perdido, os locais por onde andei e onde me sentia melhor, na minha vida que já estava a mudar naquele avião para outros ritmos e outros hábitos, procurar trabalho, cumprir horários e tal como a outras pessoas normais, ganhar a minha independência.

 

A sobrevoar Portugal, as lágrimas ainda me vieram aos olhos quando se entoou, cantou, berrou, quase até chegarmos à pista de aterragem, a canção "Cheira bem, cheira a Lisboa..."
Quando aterrámos em Lisboa, no aeroporto de Figo Maduro, e saímos para o quartel, RALIS, tínhamos terminado a nossa odisseia.

 

Já à civil, reparei que Lisboa era uma cidade cheia de Verão, filmes recentes, jornais, depois a televisão a emitir programas que eram para mim quase uma novidade, tudo parecia, ainda... um sonho.


Passados estes anos, ainda tenho a consciência de que, quando regressei, não era o mesmo e que aqueles dois anos e meio pesaram muito na minha vida, mas também aprendi muito, a vida deu-me luta, obrigou-me a enfrentar desafios e hoje, ainda sei o que não quero.


Finalmente, ficaram as boas recordações e as suficientes para agora passados tantos anos as podermos partilhar em encontros, em viagens ou no nosso sítio na internet http://cc3485.no.sapo.pt/ , lembrando que houve também uma saudável, sincera e desinteressada colaboração vivida naqueles momentos entre todos que poderá servir de exemplo para hoje sermos melhores, ultrapassarmos traumas e esquecermos divergências.

 

Nzambi e os espíritos da selva estiveram comigo, não esqueço.
 

 

(a seguir - Conclusões)

 

publicado por Alto Chicapa às 14:08

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Domingo, 21 de Dezembro de 2008

64- Epilogo / Destacamento

(continuação de 63- Três crianças no quartel)

 

Quem viveu em África nunca mais a esqueceu, dizem … e eu confirmo.
 

A três meses da mudança política verificada no dia 25 de Abril de 1974, a nossa companhia viveu uma nova fase da guerra devido à substituição do Comandante da Z.M.L. e às novas movimentações da U.N.I.T.A..


Apesar da operação Castor e de a ordem dada ser “Rapidamente e em força em cima de Savimbi”, este, mesmo assim, acabou por escapar para a Zâmbia.


Numa quinta-feira, de um dia do mês de Janeiro, que já não consigo precisar, foi-me entregue, em mão, uma mensagem, escrita num pedaço de cartão das rações de combate onde dizia, “o destacamento precisa de mais tropas, pode haver maka no sábado, cuidados na picada sul, ainda saber mais”.

 


 

António Cavula, a doze quilómetros do Alto Chicapa, era uma aldeia onde o nosso destacamento esteve instalado durante uns meses. Foi construído um pouco antes da entrada Oeste da povoação e ficava bem junto da picada.

 

A população mais influente, incluindo o soba, nunca se mostrou muito amistosa com a tropa.
Dizia-se, que ainda existiam muitas influências da F.N.L.A. na zona e entre Os Mais Velhos.
A nossa missão na aldeia estava terminada há algum tempo.
 

Os resultados estavam à vista de todos, a aldeia estava reconstruída com algumas casas novas e outras melhoradas, os caminhos restaurados, o depósito de água tinha voltado a ter água e a escola estava a funcionar com melhores infra-estruturas.
 

Sem que alguém se apercebesse da gravidade do que estava em vias de acontecer, preparou-se o nosso pequeno-almoço para mais cedo do que era habitual.
Ainda poucos sabiam que era a última refeição.
Mesmo assim, não deixámos de ter os miúdos à espera para levarem, o café com leite e o pão para a cubata.
Quando os soldados souberam que íamos regressar ao quartel, houve uma azáfama e uma rapidez invulgar no destacamento para arrumar os materiais. Ainda não eram nove horas, já estava tudo desmontado e empilhado, à espera da chegada da Berliet e do Unimogue.
 

- Como é, alferes?
- Diz, Vieira!
- Temos tudo pronto. E a viatura quando chega?
- É preciso calma. Aproveitem o pouco tempo que aqui vamos estar para descansarem.
- Oiçam bem o que vos digo … ninguém sai daqui para despedidas na aldeia!
- Mas alferes ….
- É uma ordem, depois falamos!
- Furriel! - Furriel Gomes, meta aí uma cunha.
- Parece que não ouviste bem!
- Não olhes assim para mim, se alguém sai daqui, vai tudo co’caralho … perceberam!
 

Chegámos ao quartel por volta da hora de almoço depois de uma viagem rápida e silenciosa.
 

O comandante de companhia quando chegou ao fim da tarde, vindo do Cacolo, ficou furioso com as informações que lhe transmiti e, ainda mais, com a minha saída do destacamento, que, diga-se, já estava mais ou menos prevista.
Com tudo o que ouvi, com uma nova ameaça de cinco dias de prisão, embora hoje isto já não tenha importância nenhuma, foi uma experiencia única na minha vida.
 

No dia seguinte, de manhã muito cedo, o capitão dirigiu-se, com outros da sua confiança, ao local. Foram atacados a rajadas de kalashnikov. Regressaram ao quartel sem ferimentos, embora um pouco desasados.
 

Em conclusão, acabei por ser o “bombo” daquela festa.
Mandou-me, escolher dez homens do meu grupo de combate e sair Domingo de manhã para patrulhar a área durante quatro dias.
Parti, para o meu novo castigo, com 10 voluntários, os do costume, o pessoal fixe, e um cão. Fomos para uma zona de mata que eu conhecia muito bem e que até nos possibilitava algum descanso.
Para nossa segurança, mas contra a vontade do Hamilton, mandei cancelar, até ao último dia, todos os contactos diários com o quartel.
 

O meu relatório da operação / patrulha, indicava que já não havia nada a assinalar na região e que a fuga de, mais ou menos, cinco indivíduos, três com botas militares, tinha sido feita ao longo da picada, na direcção da povoação de Cazoa.
Ainda acrescentei que a aldeia estava dividida na versão dos acontecimentos, numa versão, diziam que os guerrilheiros tinham vindo sob protecção da população, com a intenção de fazer sangue no destacamento e fugir rapidamente para a região do Dala, na outra versão, diziam que os guerrilheiros tinham vindo visitar familiares e ver as melhorias na sanzala. No entanto, ficou por dizer, a terceira versão dos acontecimentos, na boca de seis simpatizantes do M.P.L.A., que argumentavam estar tudo preparado para na lua nova haver um massacre nocturno no destacamento.
 

Umas semanas mais tarde, consegui obter um pouco mais de informação e conhecer melhor os contornos das eventuais intenções. Efectivamente, tudo estava a ser preparado há algum tempo com a conivência de algumas figuras da aldeia sob o pretexto de ser uma visita a familiares. Para além das flagelações às instalações enquanto os soldados dormiam, o grupo atacante iria dividir-se em dois, para na picada emboscar a coluna que eventualmente viesse em ajuda.
Passados dois meses, ainda consegui saber um pouco mais. O grupo era constituído por sete elementos, todos pertencentes à U.N.I.T.A., tendo dois deles ficado na aldeia sem as armas.
 

Depois daquelas obras todas, dos trabalhos de manutenção, da ajuda dos enfermeiros às populações, da actividade do Capelão e do Médico, dos tempos difíceis, do cheiro da morte e do apelo da guerra, sinto ainda, a magia daquelas gentes diferentes, a terra selvagem e bela, tudo o que nos fazia pensar com um permanente confronto de sentimentos e de emoções.
 

Ao fim de tantos anos, sem esquecer o sucedido, consigo perdoar, totalmente, a atitude miserável daquele soba, e interrogo-me, sobre:
• Os inúmeros sacrifícios, perdidos e destruídos, que ficaram por lá; e
• A razão da nossa Pátria, por quem demos, uns a vida, outros a saúde e outros a juventude, parecer querer esquecer-se de nós.
 

(a seguir - Epilogo / Fim da comissão)

 

publicado por Alto Chicapa às 12:16

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Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

63- Três crianças no quartel

(continuação de 62- Os meus olhos já iam vendo esta terra de uma forma diferente)

 

Durante dois ou três dias tive febres altas e fiquei bastante debilitado. Tinha sido apanhado pelo paludismo.
Com o imenso frio, as terríveis alucinações e os delírios, percebi que a minha vida não valia nada sem a família, lembro-me de ter visto civis a circularem pelo quartel e de haver miúdos a brincarem na parada ou nas casernas dos soldados.
O Dr. Vilaverde acabou por me restabelecer rapidamente com meia dúzia de injecções, uns fortificantes e os habituais comprimidos de Resoquina, que também evitaram a repetição das febres.


Aquelas imagens da alucinação foram provavelmente um sinal ou uma mensagem que me levaram a acreditar e a insistir na vinda da minha mulher e do meu filho.


As minhas visões acabaram por se tornar realidade, e de tal forma que no mês de Agosto a população do quartel aumentou e melhorou com a presença de três senhoras, a esposa do Capitão, a minha e a do Alferes C., e de três crianças, o João Miguel, o João Carlos e a Catarina.


Para que as minhas visões ficassem completas, a minha mulher ainda trazia na sua bagagem o que faltava, o carinho, o amor, a alegria, a doçura e a ternura.
 

Foram dias felizes, que se escoaram ligeiros como é próprio dos bons momentos e das coisas boas.
 

Passaram anos, desde esses momentos. Mesmo assim, gosto de fazer as contas com o passado e de regressar aos sítios onde, além de tudo, também fui um pouco feliz.
Só para recordar, gosto de voltar aos locais onde melhorei, não para repetir os momentos, apenas para os reviver mesmo sendo de uma forma virtual, as paisagens, a luz, o cheiro da terra e aqueles espíritos da selva que me inspiraram e ajudaram a pensar melhor na vida, não para um pensamento imediato mas com ideias para um horizonte longínquo.
 

Viver no Alto Chicapa com a família, significou viver em território africano onde o ritmo do quotidiano é lento e calmo, mas onde há sempre coisas para ver e fazer, onde o tempo é gerido de maneira tranquila e menos angustiante do de hoje, onde se vive a tentarmos ser o que não somos e a perder energias com problemas menores ou artificiais.
A magia que se fazia sentir levava-nos a querer realizar vários passeios por uma natureza onde não havia medos.
No céu, havia sempre uma luz de um azul intenso, misturado com uma tonalidade violeta, típico das altitudes, que preenchia aquela paisagem com um misto de doçura e serenidade.
 

O povo tinha um carácter reservado, os contactos eram restritos e falavam muito pouco.

O problema mais grave, era o consumo da liamba e do álcool, este produzido a partir da fermentação do milho e da mandioca (cachipembe). Quando estavam embriagados, transformavam-se totalmente e até os próprios olhos pareciam diferentes, insultavam e reagiam muito mal, não conhecendo aqueles de quem se diziam amigos.
Ainda assim, atrevo-me a dizer que, quando sóbrios, eram simpáticos, genuínos e na amizade eram leais e transparentes.
 

 

Desde muito jovem, aprendi a ser independente e como filho único habituei-me a fazer quase tudo sozinho.

Porém, naquela época, a minha vida tinha mudado com o meu primeiro filho, o João Carlos e a minha mulher. Eu já não era o mesmo, precisava deles.
Gostava de o observar a correr despreocupado por tudo o que era sítio, e ver como tinha crescido desde as minhas férias, mas mantendo o ar doce e atrevido que lhe era característico.
Olhava-o com a mesma ternura que se tinha entranhado em mim no momento em que nasceu.
Caía, levantava-se logo, não precisava de ajuda e raramente chorava. Os soldados até lhe chamavam “O Fufuta”, nome de guerrilheiro.

 

Após um Natal feliz passado em família e entre militares, a U.N.I.T.A. guardou para o dia de Ano Novo do ano de 1974 um ataque a Sautar, uma aldeia que ficava muito perto de nós. Cortaram a cabeça a 36 nativos.
Depois dos últimos acontecimentos e do ressurgir da guerrilha às mãos de uma U.N.I.T.A. transformada, que esteve até aqui cinicamente calada e apoiada pelo nosso exército, a minha família regressou a Portugal.

 

Quis o destino, que o avião que nos levaria do Alto Chicapa a Henrique de Carvalho fosse abatido ou tivesse explodido após a saída da localidade do Lumege.
Sem transporte, para chegarmos a tempo ao avião que fazia a ligação entre Henrique de Carvalho e Luanda, valeu-nos a amabilidade do Sr. Capela, o comerciante local, que nos emprestou o seu velho jipe de caixa aberta, um Land-Rover e do meu comandante de companhia que emprestou um bidão com 200 litros de gasolina.
 

Saímos, quando começava a cair a noite. O ambiente era inexplicável e misterioso, com uma neblina muito baixa à mistura.

Tínhamos provas e informações que a guerra andava por ali, estava mais activa e ainda havia a desconfiança que alguns guerrilheiros estariam por perto do Alto Chicapa.

Achámos, mesmo assim, que não era preocupante, bastava-nos alguma informalidade na partida, um pouco de concentração no percurso, estarmos atentos e reagir imediatamente a qualquer sinal estranho.
Por questões de segurança e para prevenir o risco fomos bem armados e acompanhados por dois homens do meu grupo de combate, o Alberto e o Canelas.

Felizmente que as intensas chuvadas dos últimos dias não se fizeram sentir, mas o nevoeiro teimou em intensificar-se e a transformar-se na nossa maior dificuldade em todo o trajecto.
De noite, as picadas de terra batida e as pobres estradas de pouco alcatrão eram ainda piores, não havia marcações, a sinalização estava praticamente esquecida e a iluminação era inexistente. Quando se adivinhava um buraco já o carro estava aos saltos.
De um momento para o outro, sem saber bem porquê, parei.
Estava desconfiado, … a estrada de alcatrão tardava e o intenso nevoeiro continuava a ser um grande obstáculo. Quando saí daquela viatura, para observar melhor o terreno e a zona, assustei-me e não queria acreditar … já tinha atravessado a estrada alcatroada e tinha um imenso abismo na minha frente.
 

 

Nzambi e os espíritos da selva estiveram, uma vez mais, comigo.
 

Enfim, depois de um início muito atribulado, foi, apesar de tudo, um regresso seguro a Lisboa.
 

(a seguir - Epilogo / Destacamento)

 

publicado por Alto Chicapa às 14:12

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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

62- Os meus olhos já iam vendo esta terra de uma forma diferente

(continuação de 61- Deslocação a Henrique de Carvalho)

 

Estávamos em Julho de 1973. Os meus olhos já iam vendo esta terra de uma forma diferente, onde, até já se podia viajar sem problemas.

 

Esquecendo o colonialismo retrógrado de Salazar e os libertadores a soldo de grandes potências, americanos, russos, chineses e outros mais, Angola estava diferente e mostrava-se ao mundo, com uma nova geração de jovens e de quadros técnicos, era auto-suficiente em tudo, com razoáveis serviços de saúde pública e privada, indústrias, agricultura, pescas, minérios, petróleo e diamantes, enfim tudo o que uma grande nação poderia ambicionar.

Havia escolas desde o ensino básico e algumas universidades.

 

Nas últimas viagens que tinha feito, onde muitas viaturas circulavam sem problemas, reparei que nas cidades de Luanda, Nova Lisboa e Henrique de Carvalho, as repartições públicas estavam a funcionar com funcionários naturais de Angola que eram em bem maior número do que os brancos, e a existência de uma classe média e média alta de angolanos de todas as origens.

 

No interior de Angola, onde eu estava, as povoações mais afastadas cultivavam as lavras em paz, colhiam o suficiente para o seu sustento e ainda podiam trocar ou vender no comerciante mais próximo, adquirindo o que necessitavam … mas isto não queria dizer que estivéssemos no paraíso.

 

Na selva africana a felicidade não se encontra nos bens materiais, está dentro de cada um, é um sentimento, é o nosso ser que nos dá a consciência do que nós próprios somos. Aos poucos fui ganhando experiência na maneira de me relacionar com as populações. Aprendi pormenores importantes, quando se deve sorrir, que palavras e gestos usar e qual a atitude mais adequada para o momento.

 

Foi uma experiência única ter acompanhado o mistério de um ajuste de contas. Assassinaram um jovem por adultério, tinha a fama de se ter envolvido com outra mulher casada. Diziam que tinha usado a violência e obrigado a mulher à prática de sexo. Numa atitude de revolta as outras mulheres daquele casamento obrigaram-no a ingerir pó para as baratas e enterraram-no ainda vivo.
 

Terá sido assim? Não se sabe e não havia tribunais, mas pelo menos era assim que se contava o sucedido.


Naquela época a benevolência não era tida como bondade mas sim como fraqueza. Diziam que quem prevaricasse, tem que ser castigado, pois, de contrário, em vez de emendar-se reincidirá. Os maiores crimes eram: o desrespeito ao chefe, o assassínio, ofensas corporais e o feitiço.
Embora não tivessem um código escrito, havia a tradição oral e nenhum membro podia desrespeita-las sem que fosse punido.


Ultimamente, muitas questões eram já resolvidas pelas autoridades locais, o chefe de posto, com base em práticas jurídicas que tentavam harmonizar os usos e costumes locais com a legislação portuguesa. Mas, quase sempre, a maioria das muitas desavenças, eram apreciadas e resolvidas na aldeia sem que delas tivessem conhecimento as autoridades coloniais.


Diziam, os antepassados governam, as divindades ajudam, as magias completam e as superstições previnem. Nzambi (Deus) está no Céu, criou o mundo e os homens e entregou o seu governo aos espíritos, a quem cabe o maior papel.
 

(a seguir - Três crianças no quartel)

 

publicado por Alto Chicapa às 14:36

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Domingo, 14 de Dezembro de 2008

61- Deslocação a Henrique de Carvalho

(continuação de 60- O tchimbanda)

 

A única vez que fui em “passeio” a Henrique de Carvalho, jurei para nunca mais.


Foi um trajecto longo e desconfortável, nada compensado pelas poucas horas passadas na civilização, de uma pequena cidade.
O dia de ócio foi passado na companhia de alguns dos meus camaradas e dos Alferes Duro e Saldanha, que estavam colocados na sede do batalhão.


Sem a agradável companhia dos meus camaradas, o dia teria sido uma seca, como se diz agora.

 

 

Estivemos no edifício do governador, na igreja, nos jardins, numa ou noutra rua ladeada por uma fiada de casas e estabelecimentos comerciais e acabámos por seguir a avenida principal em direcção à cervejaria junto ao cinema.


Depois de um excelente bife, bem temperado com gindungo, acompanhado com muitas batatas fritas e umas garrafas de vinho verde, fomos tomar a bica a um café onde duas irmãs, filhas do patrão, eram as rainhas da casa, faziam as delícias dos clientes vindos do mato, e … como elas sabiam as nossas carências, e … como se tornavam cúmplices do acréscimo de tesão que nos percorria o corpo.
Ainda exclamei: -É pessoal … neste restaurante a sandes de chouriço vira paio.


À noite, fui ao cinema.

Como cheguei uns minutos antes do início da sessão, um pouco antes de se apagarem as luzes passei um olhar por uma sala quase repleta de militares.
Ao início, as cadeiras pareciam cómodas, mas ao fim de algum tempo tornavam-se bastante duras. A sessão, que começou com um noticiário / documentário sobre o império e o mundo, continuou até ao intervalo com vários desenhos animados no meio de gargalhadas e muitas bocas.
Depois do primeiro intervalo, começou o filme, Um Dólar Furado, uma história de cowboys, que agradou a todos e foi certamente o tema das conversas nos dias seguintes. Terminada a sessão, houve uma salva de palmas.


Pela noite dentro, ainda bebemos umas cervejas acompanhadas com uns petiscos de ocasião e umas 1920 em balão aquecido.


No meio dos muitos vapores de Baco, falou-se um pouco de tudo, especialmente de grandes pernas e muitas mulheres, mas no meio de tudo isto, alguém tentava mudar o rumo dos acontecimentos e do assunto. Dizia teimosamente, umas piadas, insistia que tinha ouvido, à saída do cinema, duas das muitas pulgas existentes na sala a decidirem se iam a pé ou num tropa, e… que não devíamos esquecer que hoje era dia d’ânus, a Teresinha, a arrumadora, estava com o período …, ih! ih! … e … e, aquele gajo do peido … - Saíste antes de tempo! - Já não vês o filme ….


Abandonei o grupo já de madrugada para aproveitar ainda umas poucas horas de sono, antes de regressar ao Alto Chicapa.
Esperavam-me muitas horas de asfalto (125 kms) e picada (145kms).


A nossa coluna era composta por duas viaturas, um Unimogue a gasolina, onde ia o condutor, o nosso capitão, o correio e alguns géneros alimentares, e uma Berliet com um condutor, eu, dois furriéis, três soldados, muitos sacos de cimento e alguns ovos.


No regresso, o trajecto parecia ser mais fácil de percorrer e até o condutor estava mais confiante e com o pé mais pesado. O desejo de chegar cedo e de dia, fazia-nos esquecer a prudência. Parámos no Cacolo, na Tasca do Mais-Velho, para comer um arroz à malandro com muita cerveja gelada. Quando terminámos o petisco, reparei que o nosso capitão já não estava entre nós. Perante a minha admiração, todos confirmaram que era mesmo assim, nesta altura do percurso, com ou sem petisco, não esperava e continuava para o quartel.


Quando já estávamos muito para lá do meio do trajecto, um pouco antes da descida para a sanzala do Cambatchilonda, numa zona de picada plana e recta, onde íamos a uma razoável velocidade, de repente, entrámos num troço em que a terra e a areia se tinham transformado imprevistamente num pequeno manto de lama, o condutor ao reduzir a velocidade, a viatura guinou para um dos lados e saiu da picada. Quando carregou no travão, com alguma força, para nos impedir de irmos bater ou cair numa ribanceira, uma das rodas ficou ou estava bloqueada.

 


É verdade que a perícia do condutor e a sorte nos protegeram totalmente, a nós e aos ovos, de eventuais ferimentos, mas não nos livrámos de uma longa reparação pela noite dentro.

Os mecânicos António Ferreiro e António Morgado eram obrigados a fazer milagres.

(a seguir - Os meus olhos já iam vendo esta terra de uma forma diferente)

 

publicado por Alto Chicapa às 12:44

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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

60- O tchimbanda

(continuação de 59- A iniciação dos rapazes)

 

Voltando a Maio de 1973, e ao tempo em que o ambiente entre as NT e as populações eram de confiança e de descontracção, lembro-me:

 

O momento em que um homem doente procurou o adivinho para se curar.
Este, começou o tratamento invocando os ídolos e os espíritos dos antepassados. No fim informou-o que estava enfeitiçado e que devia fazer determinadas rezas, pagar com uma cabra e tomar os remédios que deveria procurar na mata.

Só como exemplo, quando alguém tinha dores nos braços, nas pernas ou reumático, diziam que eram provocadas pelos espíritos dos brancos.


Quando a doença era mais pequena, chamavam-lhe uma “mahamba”, neste caso o tratamento era feito por exorcismo no meio de batuques e cânticos excitantes onde o “tchimbanda” e o assistente hipnotizam o doente e mais tarde lhe indicavam, o pagamento que era necessário fazer aos espíritos e os medicamentos a tomar.


O adivinho ou “tchimbanda” era, quase um deus que conhecia todos os segredos da natureza e da vida do sobrenatural a quem os espíritos obedeciam.


Nenhuma decisão grave era tomada por alguém, sem que fosse consultado o adivinhador, porque era a pessoa certa para o resolver, para entrar em contacto com os espíritos dos antepassados, para explicar o sobrenatural, solucionar a origem das doenças e a morte.


 Enfim, para nós, europeus, aqueles adivinhos eram, quase sempre, pessoas sem escrúpulos, a quem toda a gente venerava, pagava e acreditava.

 

O povo tinha, sempre, muito medo.
 

(a seguir - Deslocação a Henrique de Carvalho)

 

publicado por Alto Chicapa às 13:59

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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

59- A iniciação dos rapazes

(continuação de 58- A iniciação das raparigas)

 

Voltando a Maio de 1973, e ao tempo em que o ambiente entre as NT e as populações eram de confiança e de descontracção, lembro-me:

 

Do momento em que fui convidado a participar na festa da iniciação dos rapazes, que com cerca de catorze anos vão para a “mukanda”, onde são submetidos à circuncisão e onde lhes são também ministrados todos os ensinamentos.


Durante alguns dias haverá uma enorme actividade que gira em redor do rapaz / aluno / iniciado, dos pais, do operador, do ajudante, do professor e a aldeia.
No final do serviço, quando o aluno sai, há sempre um pagamento obrigatório, geralmente feito em animais domésticos, bebidas, ou outros bens.


Tudo acontece num cercado redondo com uma única entrada que fica virada para a aldeia, a “tchifwa”. Lá dentro, existe uma pequena palhota destinada à mulher mais idosa da aldeia a quem compete a preparação das refeições para que os circuncidados não emagreçam, não adoeçam ou morram, (diziam que tudo podia correr mal se fossem preparadas por uma mulher de estado impuro, isto é que pudesse ter relações sexuais).
À frente da porta, é plantado, numa pequena cova, uma espécie de arbusto, terminado em forquilha, com duas pontas, uma mais alta que a outra, e a que dão o nome de “mwehe”.

 
Na véspera da entrada dos rapazes, logo que anoitece, todos os casais da aldeia e outros estranhos vão para dentro do cercado onde acendem varias fogueiras, junto das quais se sentam, dançam, gozam a vida, comem e bebem até mais não poder.
Quando se ouvem imensos sons ensurdecedores acompanhados por batuques, começa a dança da circuncisão, a “tchisela”, a noite propiciatória e licenciosa, como diziam. Era o início de todas as liberdades, onde todas as brincadeiras são permitidas.
Nesta noite, não há casais, não há adultério, apenas homens e mulheres. É a noite dos amantes, em que a todos é permitido divertirem-se com a mulher do próximo.
Para que não haja dúvidas, o chefe da aldeia informa todos que ninguém pode provocar desordens ou estragar a alegria dos outros.
Cada participante tem a liberdade de dançar, agarrar, apertar ou apalpar outro do sexo oposto desde que se sintam mutuamente atraídos. As relações sexuais consentidas, procuradas ou toleradas, nesta noite, são todas praticadas fora do cercado, e só, até ao nascer do dia, quando acaba a dança.


Logo que nasce o sol, o chefe da aldeia, acompanhado de todos, vai rezar aos espíritos dos seus antepassados para que tudo corra bem e livre os circuncidados de toda e qualquer doença, feitiço ou mal.


Depois, os operadores, os seus ajudantes e o “mukiche” (mascarado), vão abrir outra saída no cercado, no lado oposto à única existente, por onde vão sair a fim de procederem ao corte dos prepúcios.


Com os braços prendem-nos, e a cabeça é virada para o lado para não verem a operação, que é feita sem anestesia ou outros cuidados anti-inflamatórios.


Enquanto os iniciados do ano anterior, dançam e cantam, o “mukiche” guarda o local da operação, para evitar que as pessoas alheias profanem o recinto da circuncisão.

 

 

Depois de operados, completamente nus, ficam em fila virados para nascente com o pénis a sangrar (não podem olhar para poente e para o local onde foram operados).

Para acalmar a agitação, o medo e a dor dos iniciados, é lhes colocado, na cabeça, um pouco de argila branca bem molhada e para fazer parar o sangue, põem sobre o golpe, um pouco de pó proveniente de plantas.

 

Por fim, os iniciados dormem três noites ao ar livre junto de uma fogueira, e depois dentro de umas palhotas que construíram.


Ao romper do dia, sentam-se virados para o nascente, assistem ao nascer do Sol e pedem para que lhes dê fecundidade e potência sexual.

 

A partir da data da circuncisão, passam a ser considerados homens e adquirem um novo nome.

 

(a seguir - O tchimbanda)

 

publicado por Alto Chicapa às 13:37

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Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

58- A iniciação das raparigas

(continuação de 57- Mergulhos no rio)

 

Voltando a Maio de 1973, e ao tempo em que o ambiente entre as NT e as populações eram de confiança e de descontracção, lembro-me:

 

Do momento em que fui convidado para ver a parte final e ficar a conhecer os preparativos da iniciação das raparigas.
 

Tudo acontece quando a adolescente tem o 1º fluxo menstrual e foge para o mato, embora para perto da aldeia, mas longe da vista dos homens.


Uma das mulheres adultas, a que chamavam de mestra, procura a jovem e leva-a para junto de uma árvore e aí mantêm-na acocorada. Dá-lhe umas raízes a comer e leva-a tapada para a casa das menstruadas, que fica fora da aldeia.


A iniciação dura uma semana, na companhia da mestra e de uma virgem, com quem dorme.
 

Diziam que, durante esta semana, a mestra ensinava e exemplificava o verdadeiro comportamento nas relações sexuais, a prática dos movimentos ondulatórios da vagina e as técnicas para a obtenção do máximo prazer.


Todas as mulheres que participavam nos ensinamentos, ficavam agarradas umas às outras, tal como homem e mulher.
Cada lição de aprendizagem só terminava quando a aluna e a professora atingiam o orgasmo.
 

No corpo da iniciada, também são feitos alguns golpes transversais, acima da púbis, nas costas, cintura e rins. Estas linhas, têm finalidades eróticas, excitantes e indicam onde o homem deve colocar a mão esquerda durante o acto sexual.


Logo que termina o fluxo menstrual, a iniciada é lavada e levada para casa da família ou do marido, onde a pintam toda de branco, e lhe dão um novo nome.
É nesta altura que passa a dormir com o marido, mas só na terceira noite lhe é permitido ter relações sexuais.


Enfim, independentemente da anterior vida da jovem, com ou sem relações sexuais, o que contava para a mulher era o dia do 1º fluxo menstrual e era a partir daí que acontecia a verdadeira vida de casada.
 

(a seguir - A iniciação dos rapazes)

 

publicado por Alto Chicapa às 14:24

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Domingo, 7 de Dezembro de 2008

57- Mergulhos no rio

(continuação de 56- Mudança no comando da Zona Militar Leste)

 

Voltando a Maio de 1973, e ao tempo em que o ambiente entre as NT e as populações eram de confiança e de descontracção, lembro-me:

 

Dos momentos em que ia dar uns mergulhos no rio e muitas vezes bem perto de algumas mulheres nativas a lavar a roupa. Já ninguém reparava uns nos outros, embora elas, como era habitual, estivessem em tronco nu e de seios à mostra.

 

Era uma situação, a que já estávamos habituados, encarada como a coisa mais natural deste mundo, frequente na zona, e que já não constituía surpresa para nós e nem era um motivo de atracção.
 

( a seguir - A iniciação das raparigas)

 

publicado por Alto Chicapa às 11:22

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Sábado, 6 de Dezembro de 2008

56- Mudança no comando da Zona Militar Leste

(continuação de 55- Torneio de futebol)

 

A vida no quartel mantinha-se religiosamente igual, mês após mês. A região também continuava sem vestígios de movimentos hostis, no entanto uma mudança no comando da Z.M.L. (Zona Militar Leste) iria alterar o equilíbrio conseguido pela equipa do general Bettencourt Rodrigues.


Esta mudança, originou também uma visita ao nosso aquartelamento por altas patentes militares onde se incluía o senhor General Hipólito. Os preparativos foram levados ao extremo e de tal forma que até os soldados passaram a usar lençóis na cama, mas era só um, para, naquele dia, fazerem a cama à espanhola, e para o senhor General ver.

 


(fotografia cedida por Álvaro Marques) 

 

No dia do evento, reuniram-se na “parada” os militares presentes e outras entidades das quais não me recordo de nada.
De acordo com as normas, e depois de prestadas as honras militares, a patente mais alta em visita ao aquartelamento tomou a palavra e massacrou os nossos pobres ouvidos com banalidades, durante o que me pareceu uma eternidade.


Depois das cerimónias e já no momento do convívio informal perguntei a alguns soldados quais tinham sido as impressões.
Disseram-me:
- Falou, falou …
- Muita conversa …
- Chicalhada …
- Não percebi nada …
- Pelo menos vamos ter rancho melhorado!


A mudança no comando da Z.M.L. dá-se numa altura em que as tropas portuguesas estavam muito confiantes e descontraídas. Mesmo assim, a nossa actividade operacional não tinha abrandado embora todos nós soubéssemos que os grupos do M.P.L.A. e da F.N.L.A. estavam para lá da fronteira. Mas, as consequências não se fizeram esperar e as acções do IN começaram a aparecer, junto à fronteira, de formas ocasionais e curtas, mas muito traiçoeiras, violentas e com um elevado potencial de fogo.
Por exemplo, no itinerário Luvuei-Lutembo, montaram uma emboscada, causando 5 mortos e 32 feridos, com alguns muito graves, e a U.N.I.T.A. prevendo que a sua situação iria mudar, também tentou, embora sem êxito, ser reconhecida oficialmente pela ONU, no decurso da 22ª sessão do Comité de Libertação, em Mogadíscio.


O novo comando planeou para Janeiro de 1974 a operação Castor, com ataques violentos contra as bases da U.N.I.T.A. e a aniquilação da sua direcção.


Savimbi, com a ajuda de uma notícia saída no Jornal Expresso, teve conhecimento das intenções, perspectivou os possíveis cenários de guerra, e anunciou por escrito, em Setembro de 1973, a um amigo madeireiro da localidade de Cangumbe, situada a poucos quilómetros do Luso, o que se estava a passar e que iria pôr-se a mexer e rever o seu manual da guerrilha.


Entre Dezembro de 1973 e Janeiro de 1974, a U.N.I.T.A., sem aviso prévio, primeiro, ataca violentamente as tropas portuguesas, provocando muitas baixas, e de seguida as populações que lhe eram mais hostis, como por exemplo, a destruição da localidade de Sarieza no Bié e o corte de 36 cabeças, de homens, mulheres e crianças, na população de uma localidade que já não consigo precisar mas que ficava a cerca de 60 quilómetros do nosso aquartelamento.


Também havia duas flagelações programadas para o Alto Chicapa, sob a responsabilidade de um pequeno grupo de sete jovens, dividido em dois, que foram naturalmente “abortadas” por falta do objectivo principal, os militares no destacamento em António Cavula.
De madrugada, quando os atacantes se aperceberam do novo enquadramento militar na aldeia, desorganizaram-se, e por ausência de comando ficaram perdidos e sem iniciativa.
Dez horas fizeram a diferença e mudaram toda a estratégia de um ataque traiçoeiro pela madrugada e de uma emboscada criminosa, para uma vitória silenciosa, nossa, sem armas e sem heróis.


Ao P. (professor) e ao primo (monitor / enfermeiro), amigos sem cor, onde estiverem, bem hajam.
 

( a seguir - Mergulhos no rio)

 

publicado por Alto Chicapa às 14:28

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Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

55- Torneio de futebol

(continuação de 54- Férias no "Putu")

 

No primeiro fim-de-semana do mês de Abril de 1973, com os equipamentos que tinha trazido das férias em Lisboa, camisola laranja às riscas e calção branco, inaugurámos o campeonato interno entre grupos, de futebol de onze.

 


O 1º jogo foi contra a CCS e foi emocionante.

 

A nossa equipa, os escorpiões do 1º grupo de combate, esteve insuperável e fulminante num grande jogo com certeiros remates do Canossa, do Gomes, do Miguel e do Neto que nos permitiram alcançar uma vitória estrondosa por seis bolas a duas.


Também me recordo das espectaculares defesas do nosso guarda-redes, o João.


Não ganhámos o campeonato, mas foram muito desintoxicantes os momentos de descontracção e as conversas entre o pessoal após os jogos.


Não sou capaz de reproduzir os momentos mais entusiasmantes dos jogos, mas ainda me lembro de uma situação de grande perigo e de confusão junto da nossa baliza … o guarda-redes tinha abandonado o jogo para ir à casa de banho.
 

(a seguir - Mudança no comando da Zona Militar Leste)

 

publicado por Alto Chicapa às 12:33

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Domingo, 30 de Novembro de 2008

54- Férias no "Putu"

(continuação de 53- Sem reabastecimento e correio)


Entre Fevereiro e Março de 1973 “meti” férias, na, e da guerra, e fui até à metrópole, ao Putu, numa longa viagem de 40 dias, 4 dias em Henrique de Carvalho (2 na ida e 2 no regresso), 6 dias em Luanda (3 na ida e 3 no regresso) e 30 dias em Lisboa com a minha jovem mulher, o meu filho e a família.


Somando aos longos dias das viagens, que tive de fazer, os dias do calendário das férias não se esqueceram de avançar rapidamente sem eu dar por isso, e muito mais depressa do que eu estava à espera.
Quando estamos bem, distraídos, entusiasmados e com prazer, o tempo voa sem darmos por ele.


Antes do final das férias, já andava cheio de saudades da vida civil e sem grande vontade de regressar, mesmo assim, tive de voltar ao “meu” quartel no interior de Angola.


Cheguei por volta da hora do almoço, depois de três longas viagens.


A nossa messe, mesmo muito longe de uma cidade, tinha todas as comodidades para uma razoável refeição e, em complemento, ainda havia, logo ao lado, um bar para o café, que era agradável e sempre muito bem cuidado pelo camarada Sousa.

 

A saborosa bica que bebia, nas férias, no “Xico” do Restelo, era agora substituída por outra, que só por dificuldades da máquina, não era tão boa, mas fazia parte de um vício que se mantinha e que muitas vezes eu complementava com uma aguardente 1920 em balão aquecido.


Efectivamente, faltava no Alto Chicapa, um lugar onde pudéssemos estar longe de tudo o que nos fizesse lembrar a tropa, uma máquina de café expresso de qualidade, o ambiente de um café e o convívio com os civis em bons momentos de conversa.
 

(a seguir - Torneio de futebol)

 

publicado por Alto Chicapa às 12:18

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Domingo, 23 de Novembro de 2008

53- Sem reabastecimento e correio

(continuação de 52- O meu primeiro Natal em África)


Tínhamos entrado no ano de 1973, com a época das chuvas a causar muitos aborrecimentos. Era o mau estado das picadas, a dificuldade em circular com as viaturas e a falta do abastecimento dos géneros alimentícios. Aliás, o responsável pela gestão dos alimentos já vinha há algum tempo alertando para o facto de estarmos com poucos géneros, com défice orçamental, e com uma verba que não dava para compras extra.


A propósito, os cozinheiros também diziam que tínhamos perdido a noção do tempo, porque já havia duas semanas que estávamos sem reabastecimento, e que já se andava há três dias com refeições de feijão, massa cozida com água e sal, e atum ou cavalas de lata.

Recordo-me que a última refeição decente, tinha sido “estilhaços” de frango guisado, com massa de “assentar tijolos”.


O vago mestre, furriel V., perante estes indícios de desagrado, nos cozinheiros e no pessoal, foi peremptório:
- Aqui não fazemos milagres!
-Estou farto de pedir, mas não mandam o que necessitamos!
- Não há viaturas que venham ao Alto Chicapa e o avião também não pode aterrar na nossa pista!
- Como o tédio abunda e as noites custam a passar, proponho umas caçadas na zona para reabastecermos as arcas e quebrarmos as últimas magras dietas.


Participei numa dessas caçadas nocturnas.
Éramos quatro num Unimogue a gasolina, uma caixa de ferramentas, uma espingarda mauser, do tempo da segunda guerra mundial, e um farolim.
Regressámos por volta das duas da madrugada com duas peças de caça, um animal de bom porte, um burro do mato com cerca de 120 quilos, e uma gasela com cerca de 20 quilos.
Nunca gostei de andar à caça, mas neste caso, a necessidade falava mais alto e em consciência, foi apenas o necessário.
Quando chegámos ao quartel, os mais curiosos interromperam o sono para verem o resultado.


A natureza era generosa, conseguíamos sempre a carne que o exército nos deveria fornecer. Aliás, toda a região tinha água potável e era muito fértil com terras propícias para a lavoura e com um clima favorável, onde tudo o que semeavam nascia sem necessidade de grandes cuidados.


Um dia, presenciei uma mulher a preparar uma lavra de milho. Era um método estranho, inacreditável e impossível de ser mais simples. Sem cavar o terreno, limpou-o de alguns ramos e ervas secas. De seguida, colocou à superfície e alinhados, uns pequenos montículos de terra misturada com excremento de cabra. Finalmente, introduziu-lhes um grão de milho. Duas semanas depois, com a ajuda das chuvas, nascia um exemplar campo de milho.


Mas, o que atormentava quase todos era a falta do correio, que, em condições de bom tempo, vinha uma vez por semana, pela parte da manhã, num pequeno avião mono motor da base aérea de Henrique de Carvalho, a pouco menos de uma hora de voo.


Naquela época, era a única forma, rápida e económica, de reabastecimento do nosso quartel.


Trazia a dotação de carne, frangos e peixe (pouco), com que abastecíamos as arcas frigoríficas a petróleo, algumas encomendas de camarão ou lagosta para petiscos, e um alimento muito mais valioso, para quase todos, o correio, com o qual se matavam as saudades de casa.


Como era bom, naquele tempo, o momento do dia em que abríamos o correio.
Era um momento mágico, todos o esperavam ansiosos.
Hoje, é engraçado, na melhor das hipóteses não há correspondência, ou se a há são coisas chatas, publicidade ou a maldita correspondência das finanças.
O bom correio que tanto nos alegrava, desapareceu.
 

(a seguir - Férias no "Putu")

 

publicado por Alto Chicapa às 12:50

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Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

52- O meu primeiro Natal em África

(continuação de 51- Um fim-de-semana antes do Natal)

 

O meu primeiro Natal em África estava por horas.


A calma nas tarefas e os dias rotineiros do quartel permitiram-me o envio das boas festas a tempo. Socorri-me de uma velha agenda, levada de Lisboa, onde apontei as moradas de amigos e familiares, mas que por necessidade passou rapidamente a um diário de letra miudinha muito apertada e com todos os espaços em branco aproveitados, incluindo as margens.
Hoje, a trinta e seis anos de distância dos acontecimentos, o pior tem sido as muitas palavras reduzidas, as frases inacabadas, as referências e as abreviaturas, e ainda, o mais frustrante, quando não se percebe a nossa própria letra.


Já não me lembro dos pormenores da consoada, da árvore de Natal, da música alusiva à época, se a houve, do bacalhau com batatas ou do bolo-rei. Porém, o ambiente geral era relativamente agradável e havia a melhor das disposições.


Numa noite com um enorme manto de estreladas dei uma volta de boas festas pelas sentinelas. Também fui pelas casernas com uma mensagem de amizade, afinal eram eles a minha família mais próxima.

Demorei-me um pouco mais na caserna do meu grupo de combate, onde, no meio de um grupo de soldados a jogarem à lerpa e de outros a conversarem e a rirem, havia uma mesa improvisada com chouriço, presunto, queijo, bolos secos pinhões e uma garrafa de espumante.

Ainda havia quem estivesse a reler aerogramas antigos, e outros, mais cansados, recuperavam de uma semana de mata com roncos surdos. Mais ao fundo, metido a um canto, estava o Alves que sem dar pela minha presença mostrava um ar calmo e feliz, provavelmente a reviver sonhos, a terra, os familiares, os amigos e a namorada.

- Então Alves?

- Um bom Natal!

– Desculpe meu Alferes, estava distraído a sonhar com a consoada junto da família, com a Missa do Galo lá na terra, e com a fogueira no adro da igreja.


A minha noite de Natal continuou no bar de oficiais entre espumante, uma animada conversa, dois whiskies e algumas anedotas alusivas à época.
Ainda me recordo de duas, a dos dois militares que tinham pontos de vista diferentes: um era pessimista e o outro optimista. No Natal o pessimista recebeu uma bicicleta e o optimista, uma caixinha com uma bosta de cavalo.
Diz o pessimista:
- Agora que recebi um bicicleta, vou cair e aleijar-me! E tu, o que é que recebeste?
- Eu recebi um cavalo, mas ainda não sei onde está.
E aquela, quando a mãe pergunta à filha:
- Então o que gostavas que o Pai Natal te desse?
- Preservativos L.M..
- Preservativos L.M.?!
- Sim, é que eu tenho cinco bonecas e não quero ter mais nenhuma.


No final, ainda veio o momento das ofertas do Movimento Nacional Feminino. Pelo meu lado, recebi um número do Cavaleiro Andante de 1966, um número da revista, Flama, já com quatro anos, e um estojo com uma gillete, um pacote de cinco lâminas ligeiramente ferrugentas, e um pincel para desfazer a barba.

 

Mas, a vida no Alto Chicapa nem sempre era assim tão cor-de-rosa.

Um dia, depois do serviço no quartel, fui dar um passeio na companhia do meu cão Buda, no exterior do arame farpado.
Andava de uma forma descontraída, em calções, camisola branca de manga curta e sem arma.

 


Quando passei junto ao depósito da água, senti que naquele momento, estava um homem a ser interrogado por alguém, e que teimava em nada contar. Ouviam-se gritos e mais gritos, sem parar.
Provavelmente estavam a convencer o infeliz a falar.
Por ser arrepiante, ainda hoje lhe oiço os gritos.


Num outro caso, acontecido umas semanas depois, assisti à tentativa miserável de obrigarem um homem a falar que estava de mãos presas e deitado no chão com uma roda do jipe encostada à cabeça.
O silêncio do homem, interrompido pelo acelerar do motor, era assustador.


Nunca me explicaram os motivos destes acontecimentos nem da prática de interrogatórios com jipe, mas contaram-me, que, quando ficam calados, os procedimentos habituais era entrega-los à DGS / PIDE, para os obrigarem a falar ou os levarem.
 

(a seguir - Sem reabastecimento e correio)

 

publicado por Alto Chicapa às 15:34

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